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ARTIGO | AS ORIGENS DA ORDEM DA IMACULADA CONCEIÇÃO FUNDADA POR SANTA BEATRIZ DA SILVA

“Pelo divino caminho da humildade (R2) e pobreza de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua bendita Mãe (R8), inspirada pelo Espírito Santo”, Santa Beatriz (Art 3, Constituições Gerais da OIC) fundou a Ordem para “o serviço, a contemplação e a celebração do Mistério de sua Conceição Imaculada” (Art. 9). Só podemos compreender a história de uma fundação religiosa a partir da palavra inspiração. É, pois, o que iremos nos deter ao falarmos das origens da Ordem da Imaculada Conceição fundada por Santa Beatriz.

  A palavra origem significa ponto de partida, o princípio de qualquer fato ocorrido. Contudo, este ponto de partida não provém antes de uma inspiração para poder realizar uma determinada obra ou projeto. É o que acontece no caso dos fundadores. Já os termos “inspiração”, “luz”, “intuição” ou “visão”, indicam a forma como interpretam o próprio movimento interior que se desencadeia no fundador(a) e que o(a) leva a partir de um discernimento na fundação de uma nova família religiosa. Há nesta experiência espiritual uma sincera humildade da consciência do fundador(a) no reconhecimento de estar realizando um projeto que não tem a sua origem nele(a) mesmo(a), mas que é fruto de uma inspiração que provém do Espírito (cf. CIARDI, 1982, p. 47).

A Ordem da Imaculada Conceição – OIC nasce da experiência espiritual da sua fundadora, impulsionada pela ação do Espírito Santo. E para confirmar ainda mais esta ação do Divino Paráclito na vida de Beatriz, ela foi para a corte como dama da rainha. A rainha vendo que Beatriz era muito bela, não olhava mais para Beatriz com bons olhos. Então a rainha decidiu encerrá-la no cofre. “Segundo na Positio, narra que Beatriz, na escuridão de seu encerramento no cofre, foi consolada pela Virgem Maria que lhe apareceu vestida de branco e azul, cores próprias das monjas da OIC. Esta foi uma experiência palpável, uma clara visão ou uma luminosidade intuitiva Se poderão dar interpretações do fato, porém as consequências posteriores demonstram que aquilo foi um fato “prodigioso” (Antonio, José Merino Abad, OFM, 2018,63). Beatriz resolve sair da corte e vai para o mosteiro de São Domingos. Após um período de discernimento, deu início à fundação em 1484, obtendo a autorização da Santa Sé. De fato, segundo o autor (AUBRY, p. 142) “a alguns homens e mulheres, o Espírito concede não apenas a vocação pessoal à vida consagrada, mas também a graça especial de serem iniciadores de um carisma concreto e novo que enriquece a Igreja”.

Seu ideal monástico nasce do desejo de reproduzir as atitudes de Maria, contemplar o mistério da Imaculada Conceição, no seguimento de Cristo, a quem desde a infância teve amor e devoção. A Imaculada Conceição, embora ainda não a título de dogma, pois, enquanto os frades lutavam para defender a doutrina da Imaculada Conceição, ou seja, “o que a teologia imaculatina defendia nas cátedras e nos púlpitos, o Espírito, servindo-se de Santa Beatriz, o converteu em projeto de vida para as Irmãs da nova Ordem”. Havia no percurso da história uma “semente escondida” que Deus fez florescer e enriquecer no jardim da Igreja, para celebrar o mistério da Imaculada Conceição, inspirada à Santa Beatriz. 

Para as monjas concepcionistas, a Virgem Maria é modelo e caminho para o seguimento de Jesus, pobre, humilde, em acolher com generosidade a Palavra e a vontade do Pai, em contemplar silenciosamente o Mistério de Jesus Cristo. Por isso na vocação da Irmã Concepcionista há uma profunda identificação para com a missão de Maria, que se entregou com fé, amor humilde e obediente, na fidelidade permanente à vontade de Deus. 

As origens da OIC é a fundadora Santa Beatriz, que movida pelo Espírito Santo, e sob sua guia, realiza o carisma que enriquece e vivifica o Corpo de Cristo, encontrando sua razão de ser na Igreja. A experiência espiritual que Santa Beatriz partilhou e realizara em seu cotidiano será sempre o ponto de referência para as concepcionistas. Tornando-se testemunha e exemplo para as monjas, para a Igreja e para o serviço da Igreja. Santa Beatriz soube corresponder à ação da graça divina em sua vida, testemunhando esse dom da graça, a nova família religiosa foi crescendo e amadurecendo, até tornar-se fecunda. 

O fruto amadurecido da fidelidade de Santa Beatriz à ação do Divino Espírito são as monjas concepcionistas, que “inspiradas e chamadas por Deus” abraçam o ideal monástico de sua fundadora e escolhem viver o primado do Absoluto. Seu apostolado são a oração e a contemplação, em que se consagram à Deus professando os conselhos evangélicos de pobreza, castidade, obediência e em clausura, onde se inspira no mistério de Maria, no serviço e na oração incessante pela humanidade e “imita-se e representa o gênero de vida virginal e pobre que Cristo escolheu para si e a Virgem, sua Mãe, abraçou (LG 46). “Para a irmã concepcionista, Jesus Cristo é a razão de seu ser e de seu viver na clausura do mosteiro”. (Antonio, José Merino Abad, OFM, 2018, p.43).

As origens são a Santa Regra e as Constituições em seu sentido mais puro e genuíno, é como uma bússola que direciona e instrui com zelo espiritual “advertem as irmãs que sobre todas as coisas devem possuir o espírito do senhor e sua santa operação” (R 30,1), mas também naquilo que são juridicamente as normas legais para a vida monacal da OIC. Sem dúvida, a Regra e as Constituições são elementos que constituem os alicerces sobre as quais se levantam historicamente, as diversas experiências de vida consagrada na Igreja. 

  Santa Beatriz desde a sua infância sempre teve grande admiração por São Francisco e pelos franciscanos. O Seráfico Francisco encarnou e imitou o despojamento e a pobreza de tudo, para seguir a Cristo na vivência radical do Evangelho. Assim também a concepcionista “encarna e imita a humanidade de Maria, e suas virtudes, seus comportamentos seus contratempos e suas crises. Às vezes, de tanto elevá-la e sublimá-la, nos esquecemos de sua grande humanidade. Maria, ainda que conservasse todas as coisas em seu coração, também teve lacerações em seu interior” (Antonio, José Merino Abad, OFM, 2018, p.60). 

Os Meneses, família de Beatriz, tinham uma estreita relação com os franciscanos. Como também desde os primórdios da fundação os franciscanos marcam a Ordem, com sua assistência, presença e auxílio. Podemos dizer que a Ordem Franciscana faz parte das origens da OIC. Como Ressalta o Ministro da OFM, Frei José Rodrigues Carbalho, por ocasião do II Congresso de Presidentes de Federações da OIC, Toledo, 23 a 29 de maio de 2011: “O que nos uni é por demais grandiosos e não permite que ignoremos que somos irmãos porque, apesar de obsevarmos Regras de Vidas distintas, está presente naquilo que é mais essencial na nossa espiritualidade, a figura Imaculada, Puríssima, que faz das Concepicionistas profundamente franciscanas e dos Franciscanos profundamente Concepcionistas”. Por isso, “a Ordem também é conhecida com o nome de Concepcionistas Franciscanas” (Art.1). 

A consciência de que a experiência vivida pelos fundadores e transmitida aos seus discípulos tem origem no Espírito Santo, leva a Igreja a reconhecer, na vida consagrada, um dom precioso, necessário no presente e para o futuro, pertencente à vida, santidade e missão da Igreja. (cf. JOÃO PAULO II, 1996, n.3). O que o Espírito Santo inspirou a Santa Beatriz, não havendo outro melhor e sublime exemplo, para seguir a Cristo e reproduzir suas virtudes no seguimento do Divino Esposo Jesus Cristo, a não ser a Virgem Imaculada Conceição. Por isso, mais do que uns versos da doce melodia que se entoa, estas se fazem vida, vocação e carisma para as concepcionistas, “as monjas da Imaculada Conceição…”.

Irmã Maria Cecília, OIC.

Mosteiro da Imaculada Conceição e São José de Fortaleza – CE.