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MENSAGEM FINAL DO CAPITULO GERAL DA ORDEM DOS FRADES MENORES

Respondendo ao Convite do Espírito Santo como irmãos menores na Igreja e no mundo

"Porque eu sei muito bem os planos que tenho para vós", diz o Senhor, "dar-vos um futuro de esperança" (Jer 29,11).

1. Em meio à pandemia da COVID-19, nós, seus irmãos, mais de cem frades de todo o mundo, nos reunimos no Colégio Internacional de São Lourenço de Brindisi, em Roma, para celebrar o Capítulo Geral da Ordem dos Frades Menores de 2021. Embora cada reunião dos irmãos seja uma oportunidade de regozijo, este Capítulo Geral foi uma ocasião particularmente alegre e um sinal de esperança.

2. Apesar dos muitos desafios que a Igreja e o mundo enfrentam hoje, n√≥s, Frades Menores, reconhecemos que tamb√©m existem oportunidades em meio a dificuldades. Durante os quinze dias deste Cap√≠tulo Geral condensado, muitos dos temas que foram iniciados no Conselho Plen√°rio da Ordem (PCO) de 2018 em Nair√≥bi foram levados adiante e desenvolvidos. O tema principal do PCO era “ouvir” o que o Esp√≠rito Santo est√° dizendo √† Ordem hoje. Em resposta a esta escuta atenta, n√≥s frades pudemos reconhecer uma s√©rie de convites que Deus estava fazendo para n√≥s na Igreja e no mundo.

3. Desejamos comunicar a nossos irmãos em toda a Ordem alguns desses convites e encorajar uns aos outros, num espírito de solidariedade fraterna, a assumir o chamado que o Espírito Santo nos apresenta com entusiasmo, humildade e paixão.

Convite à gratidão

4. A Ordem dos Frades Menores é a primeira ordem religiosa da Igreja Católica Romana a se reunir e realizar um Capítulo Geral desde o início da pandemia da COVID-19. Originalmente programado para acontecer em Manila, Filipinas, em maio de 2021, é quase um milagre que tenhamos sido capazes de nos encontrar em Roma e cumprir fielmente, com segurança e sucesso nossas responsabilidades para com a Ordem e a Igreja. Agradecemos a Deus e aos muitos irmãos que trabalharam incansavelmente antes e durante o Capítulo Geral para garantir que ele pudesse acontecer.

5. A experiência de poder reunir-se em Capítulo renovou em todos nós um espírito de gratidão pelo dom de nossa vocação fraterna. Todos os irmãos do mundo conheceram a dor da separação e do afastamento uns dos outros nesta época de pandemia. Esperamos que o que vivemos em Roma durante esses dias seja um símbolo para todos os irmãos de nosso desejo comum de estarmos reunidos pessoalmente.

6. Somos também gratos pela hospitalidade fraterna e pela solidariedade de nossos irmãos capuchinhos franciscanos que gentilmente nos receberam no Colégio Internacional de São Lourenço de Brindisi. Estamos profundamente tocados por seu humilde serviço e atenção para conosco. Seu espírito generoso e acolhedor reflete as raízes profundas de nossa fraternidade comum, e ofereceu outro sinal de esperança de que nosso compromisso comum com a Regra e a Vida de São Francisco nos une uns aos outros, no Espírito Santo.

Convite para “Renovar nossa vis√£o”

7. Quando abrimos nosso Cap√≠tulo Geral, mais de quatro milh√Ķes de pessoas j√° haviam morrido da COVID-19 em todo o mundo, e outros milh√Ķes ainda estavam sofrendo as conseq√ľ√™ncias desta doen√ßa sem precedentes. A presen√ßa de “nossa Irm√£ Morte Corporal” (Cant. 12) nunca esteve longe de nossos pensamentos, pois nos lembramos dos muitos frades e dos milh√Ķes de homens e mulheres que morreram.¬†Na liturgia de abertura do Cap√≠tulo Geral, rezamos pelas centenas de irm√£os que morreram de COVID-19, e nos dias seguintes soubemos de mais frades que foram afetados pelo v√≠rus. O Papa Francisco corretamente chamou este momento de “crise” e de “tempo de balan√ßo” em nossa hist√≥ria. O Santo Padre nos lembra que “a regra b√°sica de uma crise √© que n√£o se pode sair dela da mesma maneira”. Se voc√™ superar isso, voc√™ pode sair melhor ou pior, mas nunca o mesmo” (Pope Francis, Let Us Dream: The Path to a Better Future, Londres: Simon & Schuster, 2020).

8. Uma reflex√£o honesta sobre os “sinais dos tempos” dentro e fora da Ordem revela que, nestes √ļltimos seis anos, tem havido e continua a haver muitas “tristezas e ansiedades” que afligem a fam√≠lia humana e o resto da cria√ß√£o (Gaudium et spes, 4, 1). No entanto, como Frades menores, professamos “seguir os passos de nosso Senhor Jesus Cristo” (RnB 1, 1), que nos chamou para sermos embaixadores do Evangelho, que proclama a boa nova a todos os povos. √Č neste contexto que n√≥s irm√£os nos comprometemos a renovar nossa vis√£o e abra√ßar nosso futuro, reconhecendo com o Santo Padre que n√£o podemos simplesmente ser o mesmo que fomos antes das crises que o mundo agora enfrenta.

9. Um dos principais temas que surgiram durante nosso Cap√≠tulo Geral foi a necessidade de renovar nossa identidade franciscana e nossa vida fraterna. Reconhecemos que, como todas as pessoas, tamb√©m somos afetados pelas mudan√ßas dos contextos de nossas comunidades locais e globais. Como disse o Papa Francisco, “n√£o estamos vivendo em uma era de mudan√ßas, mas em uma mudan√ßa de √©poca”, que pode ser experimentada pessoal e coletivamente como desestabilizadora (Papa Francisco, “Encontro com os participantes da Quinta Conven√ß√£o da Igreja Italiana”, Catedral de Santa Maria del Fiore, Floren√ßa, 10 de novembro de 2015). Os membros da Ordem dos Frades Menores n√£o s√£o imunes a essas mudan√ßas, mas devemos lembrar que nossa voca√ß√£o √© sermos “peregrinos e estrangeiros” no mundo (RB 6, 2; Test 24) e, portanto, sermos “disc√≠pulos mission√°rios” (Evangelii Gaudium, 120) no mundo, mas n√£o partid√°rios do mundo.

10. A tarefa de renova√ß√£o de nossa identidade franciscana requer discernimento, estudo, forma√ß√£o e a√ß√£o. N√£o podemos pensar que o status quo seja suficiente para justificar nosso senso de autenticidade. O Povo de Deus exige mais de n√≥s em virtude de nosso compromisso p√ļblico de sermos Frades Menores, a exemplo de S√£o Francisco. Nunca devemos ter medo de “recome√ßar”, pois, como nos lembra Tom√°s de Celano, no final de sua vida, S√£o Francisco “n√£o considerou que j√° havia alcan√ßado seu objetivo, mas, incans√°vel na busca da novidade santa, esperava constantemente recome√ßar” (1Cel 103).

11. Reconhecemos que nosso nome como Frades Menores cont√©m o n√ļcleo de nossa identidade e o que alguns Capitulares descreveram como “os dois pulm√Ķes que d√£o vida a todas as nossas a√ß√Ķes” como Franciscanos. Estes “dois pulm√Ķes”, que permitem que o sopro do Esp√≠rito Santo anime todo nosso modo de estar no mundo, s√£o fraternitas e minoritas. Somos irm√£os em primeiro lugar, e o modo de nossa vida fraterna √© o da minoria volunt√°ria na sociedade e na Igreja. As press√Ķes sociais, como a cultura prevalecente do individualismo, e as press√Ķes eclesiais, como o clericalismo, n√£o t√™m lugar quando a vida franciscana √© autenticamente abra√ßada.

12. Esta renova√ß√£o √© um desafio concreto para cada frade e cada entidade da Ordem. Como foi salientado por alguns irm√£os durante o Cap√≠tulo Geral, o n√ļcleo de nossa identidade franciscana¬†para ser Frades Menores exige um compromisso radical para assumir o convite do Esp√≠rito de identificar-se com os pobres, os marginalizados, os abandonados, os desprezados e os esquecidos de nossas sociedades. N√£o basta simplesmente nos chamarmos “Frades Menores”, mas devemos colocar em pr√°tica o que nosso nome exige: assumir a causa dos involuntariamente “minorizados” em nosso mundo, para que n√≥s, que voluntariamente nos identificamos com os marginalizados, possamos acompanhar e defender nossas irm√£s e irm√£os em necessidade.

13. O convite para abra√ßar a fraternidade e a minoridade como o n√ļcleo de nossa identidade franciscana, os “dois pulm√Ķes” que animam nosso ser, requer uma renova√ß√£o de nossa abordagem da forma√ß√£o inicial e permanente. Em resposta a esta necessidade, identificamos um convite para nos engajarmos mais profundamente no pensamento intercultural, na fraternidade e no trabalho pastoral. O Cap√≠tulo Geral discutiu propostas para a Secretaria Geral de Forma√ß√£o e Estudos que ajudariam a facilitar recursos e modelos para tal renova√ß√£o de maneira concreta. Convidamos todas as entidades da Ordem e cada fraternidade local a refletir juntas sobre como a fraternidade e a minoridade s√£o compreendidas e vividas na pr√°tica, estando sempre atentas √† voz do Esp√≠rito, que nos convida constantemente a uma maior convers√£o, mudan√ßa e crescimento.

14. Tamb√©m ficou claro em nossas discuss√Ķes que n√£o s√≥ devemos atender √†s situa√ß√Ķes e circunst√Ęncias de nossas irm√£s e irm√£os fora da Ordem, mas tamb√©m atender √†s necessidades reais de nossos frades, especialmente aqueles que est√£o lutando ou de alguma forma aflitos. Como diz S√£o Francisco na Regra: “Que cada um manifeste com confian√ßa sua necessidade ao outro, pois se uma m√£e ama e cuida de seu filho segundo a carne, quanto mais diligentemente deve amar e cuidar de seu irm√£o segundo o Esp√≠rito! Quando um irm√£o adoece, que os demais irm√£os o sirvam como eles mesmos gostariam de ser servidos” (Rb 6:8-9). O documento de 2019 Nossa Voca√ß√£o: Entre Abandono e Fidelidade, preparado pela Comiss√£o sobre Fidelidade e Perseveran√ßa, oferece uma vis√£o e propostas concretas sobre algumas das muitas maneiras pelas quais nossos irm√£os est√£o lutando hoje. Os membros do Cap√≠tulo Geral incentivam as fraternidades locais a consultar este recurso e a aceitar o convite para acolher suas propostas concretas.

15. O PCO 2018 prop√īs um paradigma para a renova√ß√£o de nossa identidade franciscana em termos de nos tornarmos melhores “fraternidades contemplativas em miss√£o”. Como Cap√≠tulo Geral, afirmamos este chamado e continuamos a desafiar nossos irm√£os ao redor do mundo, e a n√≥s mesmos, a tomar medidas concretas para proteger e promover um “esp√≠rito de ora√ß√£o e devo√ß√£o” (Rb 5, 2; LtAnt 2), que √© o fundamento de nossa vida fraterna e, portanto, de nossa miss√£o. Pois, como o PCO nos lembrou, “somos uma miss√£o neste mundo; √© para isso que existem os Frades Menores e √© a isso que estamos inteiramente dedicados” (100).

16. Durante todo o Cap√≠tulo Geral notamos o quanto √© providencial viver durante o pontificado do Papa Francisco. Primeiro Bispo de Roma a levar o nome de “Francisco”, o Santo Padre n√£o s√≥ tem um profundo respeito pelo fundador de nossa Ordem, mas tamb√©m demonstra um profundo entendimento do carisma franciscano. Reconhecemos que estamos vivendo um “momento franciscano” na vida da Igreja e que o magist√©rio do Papa Francisco – especialmente as enc√≠clicas Laudato Si’ e Fratelli Tutti – √© um desafio e um guia para a a√ß√£o franciscana no mundo moderno. N√£o apenas encorajamos todas as fraternidades locais a estudar e rezar com estes textos, mas tamb√©m convidamos todas as entidades da Ordem a utiliz√°-los¬†como recursos orientadores para a anima√ß√£o concreta da renova√ß√£o franciscana nos pr√≥ximos seis anos.

Convite à conversão e penitência

17. Duas das caracter√≠sticas distintivas da espiritualidade de S√£o Francisco s√£o a experi√™ncia de convers√£o cont√≠nua e a vida de penit√™ncia. No final de sua vida, ele recordou sua voca√ß√£o fundamental de Frade menor como um chamado a uma vida de penit√™ncia: “O Senhor assim me deu, Irm√£o Francisco, para come√ßar a fazer penit√™ncia” (Teste 1). E muitos no in√≠cio do movimento franciscano eram conhecidos como uma comunidade chamada “irm√£os e irm√£s de penit√™ncia” (cf. LtF1; LtF2). No esp√≠rito de nossa voca√ß√£o original como Frades Menores, reconhecemos v√°rios temas que hoje nos convidam a uma maior convers√£o e penit√™ncia.

18. Expressamos nosso compromisso contínuo com o trabalho de proteção de menores e adultos vulneráveis. Infelizmente, não há nenhuma parte do mundo onde a crise do abuso sexual não tenha afetado a Ordem dos Frades Menores, pois ela tem a Igreja universal. Como Frades Menores, renovamos nossa dedicação para acompanhar as vítimas Рsobreviventes de abuso sexual e abusos de todo tipo, enquanto sempre nos esforçamos para garantir que todos os lugares confiados à Ordem sejam ambientes seguros para todo o povo de Deus, especialmente os mais vulneráveis.

19. O Cap√≠tulo fez propostas concretas e legisla√ß√£o para deixar clara a obriga√ß√£o de todos os irm√£os e entidades da Ordem de cooperar plenamente na preven√ß√£o, relato e colabora√ß√£o com todas as autoridades civis e eclesi√°sticas relevantes para garantir justi√ßa e transpar√™ncia no tratamento de alega√ß√Ķes de abuso em toda a Ordem. Reconhecemos que este √© um compromisso desafiador, mas necess√°rio, que nasce do cora√ß√£o de nossa identidade como franciscanos e √© tamb√©m um convite a uma maior convers√£o e penit√™ncia.

20. Agradecemos pelo trabalho incans√°vel do Governo Geral cessante da Ordem e pela excepcional generosidade de benfeitores individuais, funda√ß√Ķes e diversas entidades da Ordem. Gra√ßas a seu trabalho e apoio, a crise financeira vivida pela C√ļria Geral tem sido abordada de forma substancial e cont√≠nua. Novas estruturas de responsabilidade e transpar√™ncia foram introduzidas e foi tra√ßado um caminho para a sustentabilidade financeira da C√ļria Geral e daqueles importantes projetos de servi√ßo, miss√Ķes e entidades que dependem dela para seu apoio financeiro.

21. Entretanto, reconhecemos que a crise financeira foi uma “verifica√ß√£o da realidade” e um “alerta” para a Ordem que n√£o podemos simplesmente administrar os assuntos financeiros da Ordem da mesma forma. A crise financeira foi tamb√©m e acima de tudo uma crise de confian√ßa. N√£o h√° como voltar atr√°s; devemos forjar um novo caminho a seguir. Esta situa√ß√£o √© um forte apelo para sermos fi√©is administradores dos m√ļltiplos presentes que nossos benfeitores nos confiaram. Em seu relat√≥rio ao Cap√≠tulo Geral, o Ec√īnomo Geral utilizou a linguagem de uma “economia fraterna” que nos impele a pensar holisticamente sobre como integrar na vida dos irm√£os a miss√£o, os valores e a responsabilidade que temos como administradores dos dons generosos dos outros.

22. Outro tema que surgiu freq√ľentemente durante o Cap√≠tulo Geral √© o do clericalismo dentro de nossa fraternidade. Apesar da cont√≠nua exorta√ß√£o de S√£o Francisco de que “somos todos irm√£os” (RnB 22, 33; Adm. 7), e da clara articula√ß√£o nas Constitui√ß√Ķes Gerais de nossa Ordem de que “todos os irm√£os s√£o completamente iguais” dentro da Fraternidade (GG.CC. 3,1), reconhecemos, entretanto, que o que √© dito a esse respeito nem sempre se traduz na pr√°tica em todas as entidades e fraternidades locais ao redor do mundo.

23. O PCO de 2018, citando uma defini√ß√£o do Papa Francisco, nos lembra que o clericalismo “est√° gradualmente extinguindo o fogo prof√©tico que toda a Igreja √© chamada a dar testemunho no cora√ß√£o de seu povo”. O clericalismo esquece que a visibilidade e a sacramentalidade da Igreja pertencem a todo o Povo de Deus e n√£o apenas a uns poucos escolhidos e iluminados” (103). Como diz claramente o documento do PCO, este n√£o √© um perigo abstrato presente na Igreja, mas uma amea√ßa real √† nossa aut√™ntica fraternidade, testemunho evang√©lico e identidade franciscana. Reconhecemos que muito pouco tem sido feito em n√≠vel local e regional da Ordem para enfrentar a persist√™ncia do clericalismo em nossas comunidades e no cora√ß√£o de muitos frades. O Cardeal Luis Antonio Tagle dirigiu-se a n√≥s no in√≠cio do Cap√≠tulo Geral e nos desafiou a abordar esta quest√£o, ressaltando que um dos dons que trazemos √† Igreja √© nosso testemunho fraterno e nossa vida religiosa.

Para isso, pedimos novas formas de promover nossa contínua conversão nesta área, convidando todos os irmãos a nunca perder de vista o fato de que somos todos irmãos antes de qualquer ministério, cargo ou título que possamos exercer ou ter. Não podemos fugir da atitude penitencial necessária para reconhecer as formas pelas quais os males do individualismo e do clericalismo distorcem nosso senso de identidade e minam nossa verdadeira vocação de irmãos menores. O Capítulo Geral também pediu novas formas de abordar a formação inicial e permanente nesta área, com especial atenção para enfatizar a vocação distintiva dos irmãos não chamados ao ministério ordenado.

Convite à missão e à evangelização

25 Nossa vida como Frades Menores est√° orientada para a miss√£o e a evangeliza√ß√£o. Sabemos que nossa miss√£o n√£o √© nosso pr√≥prio trabalho, mas uma participa√ß√£o na missio Dei, a miss√£o de Deus. S√£o Francisco sempre deixou claro que nosso chamado vem do Senhor e, como ele nos lembra em suas admoesta√ß√Ķes, todo bom trabalho que fazemos pertence a Deus (Ad 5). Da mesma forma, √© Deus que nos chama a ser pregadores do Evangelho com toda nossa vida (RnB 17,3), raz√£o pela qual nos referimos √† forma de nossa vida (forma vitae) como “vida evang√©lica”.

26. O Papa Francisco descreve bem o que isto significa na pr√°tica hoje, quando nos lembra que “em virtude do batismo recebido, cada membro do Povo de Deus se tornou um disc√≠pulo mission√°rio” e acrescenta que “todo crist√£o √© desafiado, aqui e agora, a comprometer-se ativamente na evangeliza√ß√£o; de fato, aqueles que realmente experimentaram o amor salv√≠fico de Deus n√£o precisam de muito tempo ou de uma longa forma√ß√£o para sair e proclamar esse amor”. Todo crist√£o √© um mission√°rio na medida em que encontrou o amor de Deus em Cristo Jesus: j√° n√£o dizemos que somos ‘disc√≠pulos’ e ‘mission√°rios’, mas que somos sempre ‘disc√≠pulos mission√°rios'”. (Evangelii Gaudium 120). Se isto for verdade para todos os batizados, quanto mais n√≥s, irm√£os, que juramos viver “o Santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo” (Rb 1, 1), somos chamados a ser evangelizadores no mundo?

27. O Cardeal Tagle nos lembrou que a Igreja tem um futuro quando √© mission√°ria. Isto tamb√©m √© verdade para nossa fraternidade. N√£o temos futuro se s√≥ estamos preocupados conosco mesmos. Teremos um futuro se vivermos nossa voca√ß√£o para os outros como uma fraternidade evangelizadora. Atrav√©s das muitas discuss√Ķes orantes e comprometidas do Cap√≠tulo Geral, discernimos v√°rios convites do Esp√≠rito Santo para aprofundar nosso compromisso com a miss√£o e a evangeliza√ß√£o de maneira concreta hoje. Somos chamados a sair para o mundo e estar perto de todo o povo de Deus, especialmente daqueles que s√£o pobres e marginalizados de alguma forma. Sabemos tamb√©m que a evangeliza√ß√£o √© uma via de m√£o dupla, e que nosso desejo de permanecer perto dos pobres √© um convite para que tamb√©m sejamos evangelizados por nossas irm√£s e irm√£os.

28. No final de sua vida, S√£o Francisco lembrou que no in√≠cio de sua convers√£o “me pareceu amargo demais ver os leprosos”, mas que “o pr√≥prio Senhor me conduziu entre eles e eu lhes mostrei miseric√≥rdia”. E quando os deixei, o que me pareceu amargo tornou-se do√ßura de alma e corpo” (Teste 1-2). Da mesma forma, h√° muitas popula√ß√Ķes de pessoas em nosso mundo de hoje que nossas sociedades t√™m considerado “muito amargas” para serem vistas ou mesmo amadas. S√£o essas pessoas que o Esp√≠rito Santo nos convida, antes de tudo, a acompanhar e testemunhar o Evangelho atrav√©s de nossas a√ß√Ķes amorosas, misericordiosas e fraternais.

29. Sentimo-nos convidados pelo Esp√≠rito Santo a acompanhar os jovens adultos, especialmente neste momento da hist√≥ria em que tantos jovens n√£o confiam mais em institui√ß√Ķes como a Igreja, n√£o est√£o afiliados √†s tradi√ß√Ķes de f√© de suas fam√≠lias, ou s√£o mesmo “n√£o crentes” ou nunca foram iniciados na religi√£o. Encorajamos nossos irm√£os a estudar o “Documento Final do Encontro Pr√©-Sinodal” de jovens adultos de mar√ßo de 2018, 1 o qual reflete bem os “sinais dos tempos” de nossas jovens irm√£s e irm√£os que justamente exigem da Igreja e, portanto, de nossa Ordem, orienta√ß√£o, acompanhamento e oportunidades para participar e ser l√≠deres na Igreja. Embora a promo√ß√£o vocacional seja importante, sabemos que nosso principal convite √© caminhar ao lado de jovens adultos como colegas de trabalho e companheiros “disc√≠pulos mission√°rios” no mundo de hoje. Esta gera√ß√£o de jovens adultos tem um cora√ß√£o perspicaz para o que √© aut√™ntico, o que deveria nos desafiar a sermos melhores irm√£os e irm√£s mais jovens em todos os aspectos de nossa vida e minist√©rio.

30. Reconhecemos que o trabalho de justi√ßa, paz e integridade da cria√ß√£o √© outro convite que nos √© oferecido pelo Esp√≠rito. Assumindo o ensinamento essencial do Papa Francisco em Laudato Si’ e Fratelli Tutti, somos desafiados a colocar em a√ß√£o projetos que promovam a ecologia integral, que deve sempre reconhecer o “grito da terra e o grito dos pobres” interligados (Laudato Si’ 49). Neste momento de crise clim√°tica, quando os pobres sofrer√£o primeiro e mais dramaticamente, nos comprometemos a ser l√≠deres na Igreja e no mundo para defender em nome de todos aqueles que n√£o t√™m voz, tanto humanos quanto n√£o-humanos.

31. Somos testemunhas de como n√≥s mesmos estamos destruindo nosso planeta. Isto nos convida a cuidar n√£o apenas de nosso pr√≥prio futuro humano, mas tamb√©m do futuro de “nossa casa comum” (Laudato Si’). Somos convidados a um novo modo de vida que se traduza em a√ß√Ķes concretas. Esta √© uma forma de viver hoje nosso voto de pobreza evang√©lica. Tamb√©m estamos cada vez mais conscientes de que as cat√°strofes e a devasta√ß√£o ambiental, juntamente com a instabilidade pol√≠tica e a viol√™ncia generalizada, contribu√≠ram para um aumento chocante dos refugiados e migrantes que fogem de seus pa√≠ses em busca de seguran√ßa e liberdade. Sabemos que o Esp√≠rito Santo nos convida a um maior compromisso para cuidar e acompanhar nossos irm√£os e irm√£s refugiados e migrantes.

32. Parte do que significa responder ao convite √† miss√£o e √† evangeliza√ß√£o hoje √© entrar no que o Papa Em√©rito Bento XVI chamou de “o continente digital” (“Mensagem do Santo Padre Bento XVI para o 43¬ļ Dia Mundial das Comunica√ß√Ķes Sociais”, 24 de maio de 2009). Sabemos t√£o bem quanto qualquer pessoa que a maioria das pessoas passa uma parte significativa de seu tempo na Internet, utilizando v√°rias plataformas de m√≠dia social e se envolvendo com novas formas de tecnologia. Embora seja verdade que existem perigos on-line, parte do convite para evangelizar na era digital √© estar presente neste “continente digital” para pregar o Evangelho de Jesus Cristo atrav√©s de nossas palavras e a√ß√Ķes. √Č uma ferramenta indispens√°vel para a promo√ß√£o vocacional, a organiza√ß√£o social, o alcance ministerial e quase tudo o que fazemos como frades menores no mundo moderno.

33. Todos estes desenvolvimentos tecnol√≥gicos e mudan√ßas na sociedade nos mostram que existe uma necessidade de forma√ß√£o em √°reas n√£o consideradas anteriormente pela Ordem. Em termos de m√≠dia social e tecnologia digital, vemos uma oportunidade de estabelecer diretrizes para ajudar nossos irm√£os e outros a navegar no tumultuado “continente digital” como “disc√≠pulos mission√°rios”. Em termos de mudan√ßa das realidades sociais, sabemos que devemos trabalhar para incorporar melhor forma√ß√£o e pr√°xis intercultural em nossos programas de forma√ß√£o inicial e permanente. O convite √† miss√£o e √† evangeliza√ß√£o √© importante, mas tamb√©m √© importante a prepara√ß√£o adequada que necessitamos como Frades Menores para sermos mensageiros eficazes do Evangelho. Ao proclamar o Evangelho, convidamos nossos irm√£os e irm√£s para um relacionamento pessoal com Jesus Cristo. √Č um convite para “vir e ver” o que o Senhor tem reservado para aqueles que respondem a este chamado.

Convite para “abra√ßar nosso futuro”.

34. A tend√™ncia √† diminui√ß√£o coletiva do n√ļmero de frades em nossa Ordem √© bem conhecida e foi reiterada em v√°rias ocasi√Ķes nos relat√≥rios e debates do Cap√≠tulo Geral. Este √© especialmente o caso dos pa√≠ses ocidentais onde a Ordem est√° presente. Embora esta tend√™ncia estat√≠stica possa ser vista em termos exclusivamente negativos, desejamos dirigir uma palavra de encorajamento a nossos irm√£os em todo o mundo.

35. De uma perspectiva hist√≥rica mais ampla, vemos que o n√ļmero de membros de nossa fraternidade sempre esteve em crescimento. O que come√ßou como um projeto solit√°rio do jovem Francesco de Bernardone no in√≠cio do s√©culo XIII cresceu durante sua vida para conter uma multid√£o de homens e mulheres inspirados por sua vis√£o da vida evang√©lica. Esse famoso e tremendo crescimento tamb√©m provocou formas de dor e sofrimento nunca antes vistas. Da mesma forma, tem havido per√≠odos de decl√≠nio num√©rico n√£o muito diferente da tend√™ncia atual. Isto n√£o √© necessariamente um sinal de ru√≠na ou motivo de alarme, mas um momento de renova√ß√£o criativa. Talvez a experi√™ncia do decl√≠nio num√©rico seja um convite para redescobrir e viver nosso chamado √† minoria de novas maneiras. Nosso futuro depende n√£o apenas de nossos n√ļmeros, mas da qualidade e autenticidade de nossa vida de acordo com o Evangelho.

36. Abraçar nosso futuro significa que caminhamos juntos como irmãos no desconhecido que nos espera, chamados por Cristo e inspirados pelo Espírito Santo, como irmãos menores em missão. Também devemos olhar para partes do mundo onde há novo crescimento e possibilidades. Muitas vezes essas entidades precisam de ajuda especial em termos de sustentabilidade.

37. Durante o Cap√≠tulo Geral, observamos que nos pr√≥ximos seis anos a Ordem celebrar√° uma s√©rie de comemora√ß√Ķes importantes, come√ßando este ano com o oitavo centen√°rio da Regra N√£o-Bulada (1221-2021). Nos pr√≥ximos anos celebraremos os centen√°rios de textos significativos, como a Regra Bulada (2023), o C√Ęntico das Criaturas (2025) e o Testamento (2026); momentos hist√≥ricos fundamentais, como o Tr√Ęnsito de nosso Pai S√£o Francisco (2026); e eventos regionais importantes, como a chegada de mission√°rios europeus, inclusive franciscanos, ao chamado “Novo Mundo” das Am√©ricas.

38 N√£o queremos perder estas ocasi√Ķes como oportunidades de renova√ß√£o e evangeliza√ß√£o. Como escreveram os tr√™s Ministros Gerais da Primeira Ordem em sua carta “Para Viver e Seguir” de outubro de 2020, antecipando o 800¬ļ anivers√°rio da Regula non bullata, “evitemos celebrar esta comemora√ß√£o com a atitude de quem visita um museu sem se importar, de quem √© vagamente curioso como turista, sem o menor desejo de se comprometer plenamente; de quem s√≥ visita porque ‘deve’ ou porque ‘aquele museu √© famoso'”. Pelo contr√°rio, acreditamos que cada um desses marcos hist√≥ricos √© um momento kairos, um novo convite, um momento oportuno ou escolhido para a renova√ß√£o e a esperan√ßa. Convidamos todas as entidades da Ordem a celebrar estes eventos com um olho no que pode ser generativo e novo, uma oportunidade de “abra√ßar nosso futuro” em vez de sempre revisitar o passado.

39. Em conex√£o com a celebra√ß√£o destes importantes anivers√°rios, acreditamos que o Esp√≠rito Santo nos convida a abra√ßar um maior senso de colabora√ß√£o entre todos os ramos da fam√≠lia franciscana, mas especialmente entre as tr√™s primeiras ordens e a Terceira Ordem Regular. Estas comemora√ß√Ķes s√£o oportunidades para uma esp√©cie de “reuni√£o familiar” na qual podemos nos reunir, convidados pelo Esp√≠rito e unidos em nossa voca√ß√£o franciscana comum, para construir sobre o bom trabalho que j√° come√ßou e lutar na pr√°tica por essa unidade fraterna j√° refletida em nossa identidade comum de Frades Menores.

40. Discutimos a necessidade de rever as estruturas das entidades da Ordem, tendo sempre em mente que o Senhor envia o Esp√≠rito n√£o s√≥ para “renovar a face da terra” (Salmo 104), mas tamb√©m para renovar a “face da Ordem”. Acreditamos que √© necess√°rio rever a forma como nos organizamos em todos os n√≠veis (por exemplo, C√ļria Geral, Confer√™ncias, Prov√≠ncias, Cust√≥dias) para garantir que a forma como nos relacionamos uns com os outros, em termos de governan√ßa da Ordem, sirva melhor a nossa miss√£o no esp√≠rito de solidariedade fraterna. Isto √© especialmente importante porque pensamos na colabora√ß√£o intercultural, interprovincial e internacional e em projetos ministeriais conjuntos.

Tamb√©m reconhecemos que nosso futuro n√£o √© simplesmente nosso, mas se destina a ser compartilhado com outros. Podemos imaginar o convite do Esp√≠rito para colaborar mais amplamente, tanto dentro como fora da fam√≠lia franciscana mais ampla, como um chamado para abra√ßar outra forma de sine proprio. Como podemos abrir nossas fraternidades e minist√©rios locais a uma maior colabora√ß√£o com nossas irm√£s e irm√£os leigos, com outras ordens e congrega√ß√Ķes religiosas, e com todas as pessoas de boa vontade, independentemente de afilia√ß√£o religiosa ou status? Em uma √©poca caracterizada pelo crescente sectarismo, viol√™ncia e divis√£o, podemos dar um testemunho prof√©tico de fraternidade universal a um mundo que necessita de tal modelo.

42. O PCO nos pediu para “ouvir” o que o Esp√≠rito est√° nos dizendo. Agora √© nossa vez de responder ao convite do Esp√≠rito e ‘ressuscitar’ (Ef 5,14) da letargia de nosso status quo para renovar nossa vis√£o e abra√ßar nosso futuro como irm√£os menores na Igreja e no mundo.

Oração de Encerramento

43 Ao avan√ßarmos para os pr√≥ximos seis anos, esfor√ßando-nos para “renovar nossa vis√£o” e “abra√ßar nosso futuro”, convidamos todos os nossos irm√£os a se unirem a n√≥s na ora√ß√£o que S√£o Francisco fez no final de sua Carta a toda a Ordem.

Onipotente, eterno, justo e misericordioso Deus, dá a nós, miseráveis, fazer, por ti mesmo, o que sabemos que tu queres, e sempre querer o que te apraz, para que, interiormente purificados, interiormente iluminados, e acesos no fogo do santo espírito, possamos seguir os vestígios de teu amado Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, e chegar só por tua graça a ti, Altíssimo, que na Trindade perfeita e na Unidade simples vives e reinas e és glorificado, Deus onipotente, por todos os séculos dos séculos. Amém.

(CtOr 50-52)

 

Aprovado pelo Capítulo Geral 17 de julho de 2021

 

FONTE: OFM

Tradução livre: DeepL/translator