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ENTREVISTA COM FREI VALMIR SOBRE O CAPÍTULO GERAL DA ORDEM DOS FRADES MENORES

 

A Ordem do Frades Menores realizará durante os dias 3 a 18 de julho de 2021 o Capítulo Geral que além de ser um importante espaço de tomadas de decisões, deixa a todos os franciscanos atentos porque é nessa ocasião que são eleitos os membros do Definitório Geral (Ministro Geral, Vigário Geral e Definidores), responsáveis por conduzir a Ordem por determinado período.
A Custóida Franciscana do Sagrado Coração de Jesus (CFSCJ) com sede em Franca/SP preparou uma entrevista com o até então Definidor Geral, o frade brasileiro da mesma Custódia, Frei Valmir Ramos onde ele elucida sobre esse importante evento, desde as suas raízes à importância para a caminhada da Ordem Franciscana hoje. Vejamos abaixo essa entrevista na íntegra.

Comunicação da CFSCJ – Frei Valmir, fale um pouco para nós sobre o que é o “Capítulo Geral”, que a nossa Ordem celebrará em julho próximo.

Frei Valmir Ramos – O Capítulo Geral é uma assembleia geral celebrada pelas Ordens e Institutos Religiosos, que tem a autoridade máxima para decidir e eleger irmãos para o serviço geral e prioridades para todos.
A nossa Ordem, Ordem dos Frades Menores, celebra o seu Capítulo Geral a cada 6 anos. O início desta celebração se deu em 1217, em Assis, com o chamado “Capítulo das Esteiras”, quando São Francisco de Assis quis reunir todos os freis que formavam a sua nova Fraternidade que ele chamou de Ordem dos Frades Menores. Foi uma celebração decisiva que organizou a Ordem, já com milhares de irmãos, em grupos de Províncias e deu o impulso missionário para regiões longínquas além da Itália.
Entre os dias 03 e 18 de julho de 2021, vamos celebrar mais um Capítulo Geral para avaliar nossa vida, nossa missão e escolher os irmãos que deverão animar-nos na vivência do Evangelho e do nosso carisma nos dias de hoje e no futuro.

Comunicação da CFSCJ – No Capítulo Geral a nossa Ordem elegerá o novo Ministro Geral, 121º sucessor de São Francisco. Fale um pouco para nós sobre este serviço e qual a sua importância!

Frei Valmir Ramos – A nossa Igreja chama o Ministro Geral de “moderador supremo”. Isto significa que a Igreja considera o Ministro Geral como aquele que tem a autoridade de decisão sobre os assuntos que competem à Ordem como um todo. De fato, o Ministro Geral tem a tarefa de encaminhar soluções para todas as situações que dizem respeito à Ordem no mundo todo. Equivocadamente, muitas vezes esta tarefa é chamada de “governo”, usando uma palavra que não faz parte do espírito evangélico nem religioso, pois de fato, o Ministro Geral é aquele que deveria cuidar dos seus irmãos “como a mãe cuida dos seus filhos”, animá-los na vivência autêntica do Evangelho e do carisma e corrigi-los com caridade, se necessário. Outro equívoco influenciado pelo Direito Canônico é chamar o Ministro Geral de “superior”. Jesus mesmo pediu aos discípulos que se considerassem “irmãos” e fossem “servidores”. De fato, ministro significa aquele que serve, então o Ministro Geral é o irmão escolhido pela Ordem para servir toda a Fraternidade animando-a e acompanhando sua atividade missionária evangelizadora. Isto sem deixar de tomar as decisões necessárias e de executar os processos internos e externos diante da Igreja e da sociedade.
O Ministro Geral também é tido como “sucessor de São Francisco”, mas o nosso atual Ministro Geral, Frei Michael Anthony Perry, com razão, insiste que todos os franciscanos são sucessores de São Francisco e, por isso mesmo, eles têm a obrigação de viver autenticamente o carisma estejam onde estiverem. De qualquer maneira, a figura do Ministro Geral é sempre um ponto de referência para todos os irmãos da Ordem e também para a Família Franciscana.

Comunicação da CFSCJ – Junto com o Ministro Geral, serão eleitos outros membros? Para quais serviços?

Frei Valmir Ramos – No mesmo Capítulo Geral em que ocorre a eleição do Ministro Geral são eleitos o Vigário Geral, que é o “vice-ministro” Geral, e 8 Definidores Gerais para o mesmo tempo de serviço. Os Definidores Gerais são provenientes de todos os continentes e eleitos para servir toda a Ordem na animação e tomada de decisões que competem ao Definitório Geral. Este Definitório formado pelo Ministro Geral, Vigário Geral e Definidores, age de forma colegiada e atua também como Conselho do Ministro Geral. Os Definidores Gerais têm a missão de animar mais de perto as Entidades da Ordem em uma determinada região, por exemplo, América Latina. Eles são também o elo imediato entre os vários Ministros das Entidades e a Casa Geral incluindo as suas diversas secretarias e serviços. Quando o Ministro Geral visita uma Província ou Custódia, o Definidor Geral responsável pela animação daquela região o acompanha. Além do serviço específico do Definidor Geral, ele pode também ser nomeado para algum outro serviço de animação ou de procedimentos necessários com a Santa Sé.

Comunicação da CFSCJ – Para este momento que a Ordem vivenciará, o Capítulo Geral: Quem são os participantes? Como são escolhidos?

Frei Valmir Ramos – Os frades capitulares são aqueles que já fazem parte do Definidor Geral, o Secretário Geral, os Secretários das Missões e Evangelização e da Formação e Estudos, os Ministros Provinciais, os Custódios das Custódias autônomas e daquelas dependentes do Ministro Geral, um frade leigo de cada Conferência de Ministros, cinco frades convidados pelo Ministro Geral e outros frades que podem ser convidados como é o caso do Animador do Serviço de JPIC (Justiça, Paz e Integridade da Criação) e do Assistente Geral para OFS e JUFRA (Ordem Franciscana Secular e Juventude Franciscana). Além dos frades capitulares que já são obrigados a participar, cada Conferência escolhe o frade leigo que deverá participar e o Ministro Geral convoca aqueles que ele quer convidar. Ao todo, os frades capitulares para este Capítulo Geral são cerca de 125.

Comunicação da CFSCJ – Durante a preparação, houve algum impacto que foi fruto do momento pandêmico em que vivemos?

Frei Valmir Ramos – Este Capítulo Geral começou a ser preparado em 2018, especialmente com a celebração do CPO (Conselho Plenário da Ordem) acontecido em Nairóbi, Quênia. Lá os frades participantes opinaram sobre o local a ser celebrado e os temas principais que deveriam ser tratados. Com estas indicações o Definidor Geral decidiu que o Capítulo Geral seria celebrado em Manila, Filipinas, no mês de maio de 2021. Com a pandemia declarada no início do ano passado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), foi necessário mudar o local e o tempo de duração do Capítulo. De Manila passou para Roma e de 4 semanas ficou reduzido a 2 semanas de celebração em julho de 2021. Tudo está preparado, incluindo documentação do Estado italiano para os frades capitulares poderem ingressar na Itália neste período de pandemia. Já uma semana antes e durante a celebração do Capítulo, teremos um frade médico para receber e acompanhar todos os frades capitulares e um rigoroso protocolo de segurança sanitária.

Comunicação da CFSCJ – Sabemos que os frades estão espalhados por todo o mundo, presentes nas mais variadas culturas e vivem diversas situações diante do cenário atual de nossa sociedade. Tendo isso em mente, quais são as expectativas (da Ordem) para o futuro?

Frei Valmir Ramos – O maior desafio para os frades em todo o mundo é “ler os sinais dos tempos”. Este é um imperativo da pós-modernidade. Não é possível vivermos bem o nosso carisma e a nossa missão sem ter plena consciência do significado dos acontecimentos de hoje. Reconhecemos que é mais fácil viver e fazer o que sempre se fez, porém é desafiador ser interpelado pelas várias situações pelas quais as pessoas e toda a criação passam em todo o mundo e “atualizar” nosso carisma e nossa missão. Com as informações provindas das várias partes do mundo, com as estatísticas da Ordem, com a partilha realizada pelos frades presentes no Conselho Plenário da Ordem de 2018 em Nairóbi, ficou claro que nossa Ordem está mudando rapidamente, seja em número, seja em proveniência dos irmãos. Isto deixa claro que as decisões deverão vislumbrar o futuro, ousar (sonho de Frei Giacomo Bini, ofm) dar passos que garantam a vivência plena de nossa identidade e do nosso carisma nos mais variados cenários que encontramos em todos os continentes e ousar atuar como Fraternidade na construção do Reino de Deus caminhando com os mais pobres e excluídos das sociedades. Como Igreja é preciso abraçar integralmente as indicações do Papa Francisco: uma Igreja em saída, comprometida com as pessoas, corajosa diante dos ataques e solidária com os sofredores.

Comunicação da CFSCJ – Frei Valmir, qual a mensagem que você deixa, como Definidor Geral, acerca do Capítulo Geral, para todos os que nos acompanham?

Frei Valmir Ramos – Em primeiro lugar, uma mensagem de gratidão às pessoas que fazem parte de nossa vida e missão, pois sem elas não teria sentido nossa consagração ao serviço do Reino de Deus. Do mesmo modo como ninguém se salva sozinho, nenhum de nós consegue realizar a missão sozinho. A vivência autêntica do nosso carisma exige vida e atuação em fraternidade. Isto significa viver em dependência uns dos outros, construir juntos o projeto fraterno de vida, planejar e projetar juntos a ação missionária evangelizadora e celebrar em Fraternidade todos os dons recebidos de Deus. O carisma franciscano vem de Deus e não nos pertence, pois Deus o dá a seus filhos e filhas. Por isso mesmo, os franciscanos não podem viver sem a proximidade e a partilha da vida e da missão com as pessoas leigas.
Por fim, esperamos que todos se unam a nós em oração, suplicando as luzes do Espírito Santo para que nosso Capítulo Geral seja um impulso e um ponto de partida para viver melhor o Evangelho e responder mais adequadamente aos apelos que Deus nos faz em nossos dias.

Agradecemos ao nosso confrade, Frei Valmir Ramos, OFM pela partilha e suplicamos as bênçãos de Deus sobre toda a nossa Ordem, para que o Espírito Santo, Ministro Geral, conduza segundo a vontade de Deus, as decisões e escolhas do Capítulo Geral.

Que o Seráfico pai São Francisco, interceda por todos nós, seus filhos!

 

Fonte: Equipe de Comunicação da Custódia do Sagrado Coração de Jesus