,

OS IRMÃOS TRABALHEM FIEL E DEVOTAMENTE | os frades e as alternativas de subsistência

“Os irmãos aos quais o Senhor deu a graça de trabalhar, trabalhem fiel e devotamente, de maneira que afugentando o ócio, inimigo da alma, não extingam o espírito(cf. 1Ts 5,19) da santa oração e devoção, ao qual devem servir todas as coisas temporais. Como remuneração pelo trabalho, recebam, para si e seus irmãos, o que for necessário ao corpo, exceto dinheiro ou pecúnia, e isso com humildade, como convém a servos de Deus e seguidores da santíssima pobreza. (RB 5, 1-4).

 

É no mundo que fazemos a experiência com Deus. Impensável qualquer experiência que não seja nele. Atualmente, a humanidade está chagada pela Covid-19 e, nesse contexto, somos levados a enfrentar os desafios que da pandemia decorrem, como quem faz a experiência do Cristo crucificado. Estar crucificado para o mundo é estar presente nele, com todas as suas mazelas, dores e sofrimentos, mas continuar nutrindo a esperança de conseguirmos aqui, a realização das promessas futuras de paz e justiça. Mas, até que consigamos isso, somos atravessados pela experiência da morte, provocada pela pobreza, injustiça social e o descaso dos governantes.
Somos levados a refletir as dores da paixão, assim como bem fez o seráfico são Francisco de Assis. Ele, tal como Jesus, não abraçou a humanidade de forma parcial ou superficial, mas foi ao mais profundo, fez-se intimo do homem e da mulher e neles desvelou a face de um Cristo pobre, nu, chagado e crucificado. A imagem da paixão de Cristo que é refletida em cada sofrimento humano nos resgata à encarnação da nossa própria vida. Quem de nós saberia que, em dado contexto de pandemia, a dor do outro também se tornaria a nossa própria dor? E quando nos falta razões que justifiquem as muitas perguntas que se levantam, buscamos respostas na nossa própria vivencia e experiência com Jesus sofredor, reflexo da humanidade sofrida que foi salva pela graça divina.
Em tudo isso somos motivamos a resgatar o sentido da nossa vocação de irmãos e irmãs menores. Redescobrimo-nos como os pequenos do Evangelho e encontramos as razões que nos fazem merecer esse adjetivo. Ao nos fazer pequenos, assumindo a condição de pobres entre os pobres, tal como Francisco de Assis se fez, a exemplo do Verbo de Deus encarnado, redescobrimos a doçura evangélica num contexto amargo e cruel.
A pandemia, e com ela o desafio de nos tornamos autênticos frades menores, nos força o testemunho. Tal como os mais pobres que abruptamente perderam o pouco que possuíam e por isso entram numa corrida sobre-humana para conseguir o pouco para subsistir, algumas fraternidades franciscanas foram vendo o pão de cada dia se tornar um sacrifício cotidiano. E, nesse sentido, elas também foram obrigadas a se moldar para um novo normal, mais condizente com a vida do povo sofrido.
Nosso alimento sempre provido pelas mãos dos mais pobres nos condiciona a uma fome semelhante, pois se falta o pão para o pobre faltará também para o franciscano que o recebe. Isso nos iguala profundamente, nos assimila diretamente ao mistério pascal que é a celebração da fraternidade, da partilha equitativa entre os irmãos e irmãs. Dentre as tantas mudanças e transformações que esse gesto de partilhar possa sugerir, pomos em evidência a dimensão do trabalho. Tal como o ser humano que produz a renda com ardoroso suor, muitos frades e fraternidades são levados ao ponto de partida que sugere o Evangelho de Jesus. Muitas casas da Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil, na busca por corresponder a estes sinais dos tempos, vêm somando forças ao povo de Deus por meio de seu trabalho e mútua doação para com aqueles que necessitam. A solidariedade fraterna tem levado aos primórdios do carisma franciscano, onde as fraternidades primitivas tinham de trabalhar para angariar o seu sustento. De modo simples e como os simples, os frades franciscanos têm encontrado maneiras de trabalho a fim de sustentar a vida fraterna e a manutenção das casas.
Maior inspiração para essas atitudes não poderia partir se não do Evangelho de Jesus que, traduzido em forma de Regra de Vida para os frades, inspira a um novo modo de viver: “Os irmãos, aos quais o Senhor deu a graça de trabalhar, trabalhem fiel e devotamente”. Este fragmento reflete em nós uma profunda sensibilidade vocacional e laboral, ou seja, quando nos dispomos ao serviço, para a perseverança nele, a fidelidade se faz critério. Trabalhar em santo propósito nos aproxima e nos devota à vida que abraçamos.
A Regra franciscana também admoesta: “[…] de maneira que, afugentando o ócio, inimigo da alma, não extingam o espírito da santa oração e devoção, ao qual devem servir todas as coisas temporais”. Enquanto o trabalho é relacionado com a graça, o ócio se associa a acomodação, cansaço, inimigo do homem. O ócio provoca o fechamento em si mesmo e pode afugentar a graça do trabalho. Além disso, em tudo o que for feito, tenha-se presente a oração e a devoção que recorda que não somos superiores nem melhores que ninguém porque fazemos alguma coisa, mas sim humildes servos do Senhor.
A Regra ainda afirma que “como remuneração pelo trabalho, recebam, para si e seus irmãos, o que for necessário ao corpo, exceto dinheiro ou pecúnia”. A compreensão de remuneração automaticamente nos desloca ao sentido do dinheiro. Desde a época de Francisco até hoje, prestígio e privilégio na maioria das vezes está associado ao ter. A economia de Francisco ressignifica em nós o sentido da moeda, ela não transforma a fraternidade em um covil comercial, mas infere uma economia sustentável, sensível à casa comum e aberta à igualdade social e equidade financeira.
Como testemunho concreto à luz da necessidade de trabalhar para subsistir a vida em meio às crises, algumas fraternidades se reinventaram. A fraternidade de Salvador/BA, por exemplo, vem dando passos nessa direção. Os frades desta fraternidade, na busca por atender as demandas financeiras, têm desenvolvido produtos artesanais, o “Sabor franciscano”, com a produção de biscoitos, geleias, chocolates e artesanatos variados. Essa movimentação tem dando um rosto novo para a fraternidade e tem também envolvido as pessoas que frequentam este convento. Também os frades da fraternidade de Lagoa Seca/PB têm se reinventado e, com os frutos produzidos nas hortas do convento, se deslocam para Campina Grande onde, após as missas, vendem os legumes frescos na porta da Igreja conventual de São Francisco. Como essas, outras iniciativas e alternativas têm movimento o dia-a-dia dos frades na busca por suprir as demandas imprevistas que apareceram na pandemia.
É louvável ver os irmãos trabalhando. Para alguns, pode até ser causa de espanto. Mas o fato é que esta experiência tem os aproximado cada vez mais uns dos outros na execução das tarefas, mas também tem levado os frades a uma experiência de proximidade à vida real das pessoas que os amparam e ajudam diuturnamente.
O autêntico frade franciscano é aquele que trabalha sem medir esforços, que arregaça as mangas do hábito da pobreza“[…] e isso com humildade, como convém a servos de Deus e seguidores da santíssima pobreza”. Essa atitude eleva o espírito para o sentido virtuoso da vocação. É vida que renova e revigora, é sinal de ressurreição para o tempo presente.
Se no inicio falamos da morte como algo familiar aos nossos ouvidos, agora falamos da vida que ressuscita e que não fica tão somente na escuta, mas desce às profundezas do nosso coração.

 

Frei Felipe Ferreira de Almeida Cruz