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SANTA DULCE DOS POBRES, UMA MULHER EM PRONTIDÃO

Um escritor Francês chamado Michel Quoist, escreveu em sua obra “Construir o homem e o mundo”, sobre as duas dimensões do homem. E em sua concepção ele fala do homem total, que nestas duas dimensões se encontra por inteiro, vejamos um pouco oque isso significa e oque tem haver com a Santa Dulce dos pobres.

O homem total é o homem em pé de prontidão, em união inteiramente a Deus, deixando até o mais intimo de si mesmo ser transformado por Deus, “Não sou eu mais que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gálatas 2, 20), esta prontidão é do homem para o sagrado, a dimensão vertical que o projeta para Deus.

O homem total é também oque se une a todos os homens, uma união fraterna, sem distinção de pessoas, mas que busca a comunhão entre as diversas gerações, pessoas de diversas culturas, lugares, condições sociais, religião. O desejo destes é fazer-se um com eles. Aqui percebe-se a dimensão horizontal do homem que o projeta para o outro.

Essas duas dimensões vertical e horizontal, nos lembra o maior gesto de amor de Deus por nós, a cruz, “Aquele que não atingiu essas duas dimensões é um homem mutilado, truncado, inacabado.” (QUOIST, 1979, p. 24).

 

A SANTA DULCE DOS POBRES

A Santa Dulce dos pobres, em sua caminhada aqui na terra vivenciou bem essas duas dimensões, A Santa dos pobres buscou a dimensão vertical quando ela deixou ser tocada por Deus na vocação que encontrava-se em seu coração, e entre os olhares dos mais empobrecidos, ela enxergava o olhar do Cristo, ela se permitiu que o mais íntimo de si, fosse transformado pelo Cristo, para servir os mais necessitados “Essa pequena mulher dizia ver nos mais pobres entre os pobres a figura do Cristo a ser acolhido.” (ROCHA, 2019). Ela buscava nos apelos do Evangelho de Cristo, a força e o desejo de abraçar os mais necessitados, vencendo as diversas dificuldades em sua caminhada. O Papa Francisco escreve em sua Exortação apostólica “Gaudete et exultate”:

Dado que não se pode conceber o Cristo sem o Reino que ele veio trazer também a tua missão é inseparável da construção do Reino: “buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6,33). A tua identificação com Cristo e os seus desígnios requer o compromisso de construíres, com ele, este Reino de amor, justiça e paz para todos. O próprio Cristo quer vivê-lo contigo em todos os esforços ou renúncias que isso implique, e também nas alegrias e na fecundidade que te proporcione. (FRANCISCO, 2018, p. 18)

A Santa dos pobres, também buscou a dimensão horizontal, de forma bastante altruísta, motivada pela “figura do Cristo a ser acolhido”,  Santa Dulce era uma mulher que percebia a necessidade de seu tempo, e por isso inquietava-se para ir ao encontro dos que necessitavam, era o compromisso de construir o Reino de Deus, de amor, justiça e paz para todos que a motivava, justiça para os injustiçados, esquecidos, marginalizados. Amor, que inspirada no mandamento do amor de Jesus Cristo, ela não podia negar as suas mãos estendidas para servir, e a paz fruto do amor e da justiça, fruto de quem encontrou acolhimento, fruto de quem encontrou um caminho, fruto de quem encontrou no olhar dos filhos de Deus o olhar de Cristo. Irmã Dulce tinha um olhar diferente. “para encontrar os outros, é preciso primeiro vê-los” (QUOIST, 1979, p. 26).

Todo santo dia, ela percorria todos os pavilhões do hospital, incluindo enfermarias com pacientes com doenças contagiosas, como tuberculose. Conversava com os doentes, confortava-os e tocava neles. Recusava-se a usar luvas ou tomar qualquer precaução para se proteger do contágio por infecções. (ROCHA, 2019)

Este olhar, tocar, conversar, ir ao encontro. É essa dimensão horizontal, que independente de quem seja o outro, por causa de Cristo, está em prontidão para servir ao meu próximo, “para acolher os outros é preciso que você tenha lugar dentro de si: esvazie-se de si mesmo!” (QUOIST, 1979, p. 26) ou seja, esvazie-se de seus egoísmos, desculpas para não ir ao encontro, preconceitos, prepotência, entre outras coisas, que impedem de enxergar e amar o próximo.

 

O QUE A SANTA DULCE NOS INSPIRA HOJE

Certa vez Frei Hildebrando Kruthaup, OFM, que era um dos grandes amigos da Santa Dulce, confessor, diretor espiritual e colaborador da caminhada desta carismática religiosa, ele celebrou o jubileu de vida religiosa da Santa Dulce em 1983, e em suas palavras direcionadas a Santa dos pobres ele disse “tú acreditas plenamente naquilo que Cristo um dia proclamou solenemente, em tom categórico: que ele se esconde no próximo necessitado!” . os gestos dessa Santa confirmam essas palavras de Frei Hildebrando, ela lançou sementes que geram frutos até os dias atuais.

A vida dos Santos difundido pela Igreja, nos trás exemplos de virtudes de homens e mulheres que nos mostram que é possível buscar, viver o que nos ensinou o Cristo, sem dúvidas a Santa Dulce dos pobres nos deixou, grandes exemplos de uma vida em harmonia com as dimensões humanas tanto em relação entre ela e Deus (dimensão vertical), de uma vida que se projeta em uma busca autentica a Deus, e na relação entre ela e o próximo (dimensão horizontal) por amor a Cristo, Fazendo desta mulher aparentemente pequena e já no fim de seu caminho terreno frágil, grandiosa de coração e tremendamente forte.

Ela era de fato uma mulher em prontidão, para ouvir os clamores de Deus e dos seus irmãos e irmãs mais necessitados. Nos deixemos cativar pelo exemplo desta Santa e aprendamos com sua vida e história. Se inspirados no exemplo primeiramente de Jesus Cristo e seus ensinamentos, primeiramente o Cristo por ser o santo dos santos e ser aquele que nos chama a vida de santidade que é a vontade de Deus para nós como está escrito nas sagradas escrituras: “Eu sou o Senhor que vos tirou do Egito para ser o vosso Deus. Sereis santos porque Eu sou Santo” (Lv 1,44-45) e também inspirados no exemplo da Santa Dulce dos pobres, buscarmos ir ao encontro de nossos irmãos e irmãs para ama-los em gestos e ações, iremos transformar o mundo ao nosso redor, anunciadores do Reino de amor, paz e justiça. Sejamos homens e mulheres em prontidão, anunciadores e construtores do Reino de Deus.

Frei Mendelson Branco da Silva, OFM

REFERÊNCIAS:

FRANCISCO, Papa. Exortação Apostólica Gaudete et Exultate. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2018. 83 p.

QUOIST, Michel. Construir o homem e o mundo. Tradução: Rose Marie Muraro. 29. ed. São Paulo: Duas Cidades, 1979. 319 p.

ROCHA, Graciliano. Irmã Dulce, a santa dos pobres. 1. ed. São Paulo: Planeta, 2019. 286 p.