Frades vindos do Recife pregaram missões nos vastos sertões do Nordeste brasileiro. Por onde andam, semearam o ideal da vida franciscano, afiliando muitas pessoas de boa vontade à Ordem Terceira, criando assim uma estrutura de apoio para suas missões. Assim visitavam em missões ambulantes também lugares no Ceará como Quixeramobim, Canindé e muitos outros.
Nem todos os Terceiros Franciscanos são frutos destas andanças dos frades. Alguns já haviam entrada na Ordem lá em Portugal e vieram se estabelecer como fazendeiros colonizadores primeiramente nos tabuleiros e serras, depois estendendo suas fazendas até os sertões. Encontramos dois terceiros franciscanos na Serra de Baturité, que depois de construírem a igreja de Baturité, descem para suas fazendas na região do Renguengue e fundam a cidade de Canindé, que nasce em redor da igreja de São Francisco das Chagas. São o fazendeiro Simão Barbosa Cordeiro e o construtor Francisco Xavier de Medeiros. Outros fazendeiros de origem portuguesa vão ajudar na construção da Igreja como centro religioso e espiritual, para “sair do abandono”.
Os frades cuidam muito bem das vocações dos Terceiros Franciscanos e depois estes cuidam muito bem dos frades em suas missões. Os Terceiros do Ceará são ligados à Fraternidade de São Francisco das Chagas de Recife e, certamente por isso, escolheram como padroeiro de Canindé São Francisco das Chagas. A continuidade das missões dos frades é garantida através da atuação dos Terceiros. Da amizade atuante dos Terceiros e dos frades, nasce o Santuário de São Francisco das Chagas de Canindé.
SÃO FRANCISCO MISSIONÁRIO
Ser franciscano é ser missionário, pois o próprio São Francisco decidiu ser missionário:
Pouco tempo depois de sua conversão, São Francisco fez uma consulta a Frei Silvestre e a Santa Clara para poder decidir se a sua vocação era para uma vida contemplativa ou para uma vida missionária, e recebeu a seguinte resposta: “você deve ir pelo mundo a pregar, porque Deus não lhe escolheu para si somente, mas ainda para a salvação dos outros”. Assim Francisco iniciou sua vida apostólica dirigindo-se ao castelo Savurniano e ali pregou com tal fervor que todos os homens e todas as mulheres daquele castelo, por devoção, queriam seguir atrás dele e abandonar o castelo. Mas Francisco não permitiu, dizendo-lhes: “Não tenhais pressa e não partais, e ordenarei o que deveis fazer para a salvação de vossas almas”. E então pensou em criar a Ordem Terceira para a universal salvação de todos (veja Fioretti, cap. 16)
MISSINÁRIOS NO CEARÁ
O jeito franciscano de ser missionário: pobre e peregrino no mundo anunciando o Evangelho a todas as criaturas. Encontramos os primeiros frades em missões ambulantes na região do Ceará, a partir de 1735. Aqui os nomes de alguns destes missionários:
- Frei Domingos do Rosário
- Frei Inácio de Santana
- Frei João de São Franacisco
- Frei José da Natividade
- Frei José de Santana Firmo
- Frei José de São Luís
- Frei José de São Sebastião
- Frei José Santa Teresa
- Frei Manuel de São Vicente
- Frei Manuel de Santa Maria
- Frei Manuel do Espírito Santo
- Frei Matias do Rosário
- Frei Roque de São Raimundo
- Frei Silvestre de Jesus Maria
Esses religiosos, munidos do privilégio de usar altar portátil, onde não houvesse capela nem igreja vizinha, desobrigavam os fiéis e celebravam a Santa Missa, nas próprias casas de vivenda.
Na região de Canindé atuavam a partir de 1758 Frei Manuel de Santa Maria e São Paulo, (em 1759 este religioso celebra Missa e batiza em Campos na casa da Fazenda de Antônio dos Santos e em Renguengue), Frei Bartolomeu dos Remédios entre 1766 e 1770 e Frei José de Santa Clara Monte Falco de 1781 a 1800. Este último foi o grande incentivador da construção da Igreja de São Francisco das Chagas em Canindé.
TERCEIROS FRANCISCANOS
Os frades andavam pedindo esmolas, dando assistência religiosa às populações sertanejas e vestiam o hábito terciário franciscano aos que se declarassem prontos a seguir o ideal seráfico.
Uma prova que terceiros franciscanos atuavam em Canindé, é o registro de falecimento de Simão Barbosa Cordeiro, fazendeiro da Fazenda São Pedro, perto de Canindé, junto com Francisco Xavier de Medeiros responsável pela construção da Igreja de Canindé:
“ Aos seis de janeiro de mil oitocentos e vinte e seis faleceu hidrópico, tendo recebido todos os sacramentos, Simão Barbosa Cordeiro, branco, de idade de setenta e dois anos, casado com Dona Mariana Francisca de Betancort, moradores nesta Freguesia do Canindé, foi sepultado nesta Matriz de grades para cima, envolto em hábito de Terceiro de S. Francisco e encomendado pelo Padre Manoel Vieira. A para constar,abri este assento e me assino. O Vigário Francisco de Paula Barros.” (Livro de Óbitos n° 1 da Paróquia de São Francisco das Chagas, Arquivo da Arquidiocese de Fortaleza)
O SANTUÁRIO DE CANINDÉ
Tendo terceiros franciscanos, os frades tem onde se hospedar, tem pontos logísticos de apoio para a evangelização e para a missão, e através dos leigos incentivam a prática religiosa com suas devoções. Os Terceiros ou já vieram de Portugal professados ou são membros da Fraternidade de São Francisco das Chagas de Recife (fundada em 1695).
A amizade entre frades e terceiros fica tão grande, que no ano da inauguração da Igreja de São Francisco das Chagas (1796), os Canindeenses pedem a fundação de um Convento Franciscano em Canindé, o que o Governo da época indefere.
Nos sertões sofridos de tanta seca e de tanta opressão, nasce um santuário das Chagas, para o qual as chagadas populações acorrem pedindo saúde, paz e felicidade.
A MÍSTICA DAS CHAGAS
Era uma vez um homem: pobre, doente, coberto de chagas. Estava sentado às portas de um palácio de um ricaço e esperava pelas migalhas da mesa farta. Mas a ganância do ricaço o ignorava e o deixava morrer à míngua.
O pobre tinha um nome: Lázaro, que significa “Deus ajuda”. E a “Ajuda de Deus” estava tão perto do ricaço, na frente da entrada de seu palácio, mas o ricaço deixou a “Ajuda de Deus” morrer.
Era uma vez um Deus: humilhado, desprezado, condenado. Estava crucificado pelas mãos e pelos pés. Para se certificar de sua morte, um soldado romano lhe abriu o peito com uma lança, completando-lhe as cinco chagas. Este Deus também tinha um nome: Jesus, o que significa “Ele salva”. E a “Salvação de Deus” estava tão perto dos homens, mas os homens a mataram.
Mais tarde apareceu outro homem, alegre, corajoso, filho de um rico comerciante. Depois de uma guerra perdida, lá na prisão, ferido no corpo e no orgulho, este homem descobre sua chaga interior, sua vulnerabilidade, sua fragilidade, sua fraqueza. Seu nome era João, mas sua mãe o apelidava carinhosamente de “pequeno Francês” ou seja “Francisco”. E Francisco um dia se encontra nas ruínas da Capela de San Damiano diante de uma imagem de Jesus crucificado, e, sofrendo na sua chaga interior, sente compaixão com Jesus chagado e descobre a “Salvação de Deus”. Mais tarde vai encontrar um leproso, coberto de chagas, e sofrendo de novo na sua chaga interior, sente compaixão com o irmão leproso e encontra a “Ajuda de Deus”. E durante toda a sua vida, Francisco sente compaixão com todas as criaturas que sofrem qualquer tipo de violência ou discriminação.
Dois anos antes de sua morte, depois de uma longa “noite escura” (experiência de solidão e de abandono) aparece a São Francisco um anjo Serafim e Francisco vê impresso em seu corpo as cinco chagas de Jesus. A sua chaga interior, que por amor ao Cristo crucificado o fez sentir compaixão com os pobres chagados, se torna visível, por graça divina. São Francisco como sinal da “Salvação de Deus” tornou-se uma “Ajuda de Deus”.
Por isso acorrem a São Francisco das Chagas milhares de pessoas, cobertas de chagas, buscando esperança, consolo, cura e libertação, buscando a “Ajuda de Deus” e em Canindé encontram-se com o “Servo Sofredor” de quem o profeta Isaías escreve: “Por suas chagas fostes curados” (Is 53,5b)
Questionamento para nós frades:
Os primeiros missionários franciscanos do Ceará com seu jeito pobre e peregrino se apoiaram logo em suas missões nos Terceiros Franciscanos. E nós hoje, estamos junto com a Ordem Franciscana Secular levando adiante um projeto missionário?
A devoção a São Francisco das Chagas cria em Canindé uma mística de peregrinação e de santuário de cura de todos os males deste mundo. E nós frades de hoje, deixamo-nos contagiar por esta mística e esta espiritualidade franciscana, assumindo um compromisso libertador com os chagados de hoje?