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O DINHEIRO NA IDADE MÉDIA POR FREI MENDELSON BRANCO

Nos Séculos XII e XIII onde viveram São Francisco e Santa Clara de Assis a Sociedade
passava por uma série de transformações importantes como por exemplo o ressurgimento
e crescimento das cidades e do comércio, decorrentes do crescimento populacional e que,
por sua vez, modificava a dinâmica da convivência humana. O dinheiro que havia
praticamente entrado em desuso, no primeiro grande período medieval começa a ressurgir
por causa do crescimento das cidades e o fortalecimento do comércio, surgindo como
consequência das relações comerciais as profissões de cambistas e banqueiros, que antes
eram desempenhadas pelos próprios comerciantes, alguns destes se especializaram e
começaram a dedicar-se apenas a este ofício.
“por meio de cobrança de taxas, esses mercadores cambiavam
todo tipo de moeda, faziam empréstimos e emitiam títulos de
valores, ou seja, certificados que garantiam a um comerciante a
propriedade de determinada quantia de moedas, que ficavam sob
a guarda e proteção do banqueiro” (MORAES, 1998, p. 116)
Estes “títulos de valores” facilitavam a relação comercial, pois o grande comerciante não
precisava mais portar o dinheiro em espécie com risco de ser assaltado, grandes
negociações eram feitas com os títulos e não com as moedas. Nos séculos XII e XIII as
cidades mais ricas eram Gênova e Veneza, e também possuíam os maiores banqueiros.
Neste cenário histórico que surge, também a Igreja e a sociedade tiveram que enxergar de
forma diferente o dinheiro:
“Essa mudança na economia obrigou a sociedade e a igreja a fazerem
um processo de legitimação, tanto do dinheiro, quanto das profissões
que lidavam com ele. Partindo dos discursos de Jesus, transmitidos
pelos evangelistas, percebe-se uma certa dificuldade de lidar com o
dinheiro e com os ricos. Sobretudo, quando se trata de valores
emprestados que exigem taxas ao pagamento e quando há acúmulo nas
mãos de alguns. Herdeiro do judaísmo, o cristianismo, por séculos,
condenou a usura e, manteve por muito tempo uma certa distância dos
ricos. Basta lembrar a expressão guardada na tradição do evangelista
Mateus: “como é difícil um rico salvar se! É mais fácil um camelo
passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino do
Céus” (Mt 10, 26).” (BERNARDI, 2019)
Por isso os banqueiro e mercadores, foram sendo legitimados no Século XII, apoiados no
fato de serem também trabalhadores e assim como qualquer outro tem o direito sobre o
seu pagamento, um segundo ponto que contribuiu para sua legitimação foi a utilidade de
seu serviço, tornando aos cristãos daquela sociedade, acessível os produtos que não eram
capazes de ser produzidos por eles, e um terceiro ponto o desenvolvimento da arte que
embelezavam as igreja e também as cidades, ao qual muitas vezes foram patrocinadas
pelos comerciantes.
Foi apartir do século XI e XII que o dinheiro foi também sendo legitimado dentro da
igreja. Porém com muita preocupação pela consciência de seus perigos, por ser um
obstáculo para a salvação, reconhece-se sua legitimidade numa verdadeira economia
moral.
“O crescimento das cidades e a disseminação das moedas e seu uso,
no século XIII, estimulou a reflexão teológica sobre o tema. Essa
reflexão se torna mais presente na vida do povo por causa da pregação
em língua vulgar (o clero deixa o latim e passa a utilizar a língua do
povo) e por causa dos estudos proporcionados pelas universidades e
também pela atuação das ordens mendicantes (franciscanos e
dominicanos, especialmente) que crescem em sintonia com as
cidades.” (BERNARDI, 2019)
Com a integração da reflexão teológica sobre o dinheiro e a cidade a igreja vai superando
a dificuldade de lidar com o dinheiro e os ricos (Mt 10,26) , um exemplo é o teólogo
dominicano Carlos Magno (1206-1280) com uma série de sermões, fala sobre o papel dos
comerciantes e também dos ricos, que por vezes facilitam as cidades oque elas
necessitam, ajudando aos pobres a sobreviverem, através da oferta de trabalho ou esmolas
com caridade e ainda ornam as cidades com belos monumentos artísticos.

A transformação sobre a visão de tempo

No Século XIII começam a serem erguidas torres nas comunas com sinos, por conta das
fábricas têxteis, afim de organizar os turnos de trabalho, dessa forma o tempo secular é
marcado, assim como era marcado também o tempo da igreja indicando as horas dos
ofícios monacais. O tempo para as atividades profanas e laicas passam a ser regidos pelos
relógios, as tores de relógios é fruto da inovação do movimento comunal.
Assim percebemos a visão sobre o tempo cronológico dos mercadores, porém surge
também, assim como os agricultores da época, a preocupação dos mercadores com o
tempo meteorológico, a preocupação dos ciclos das estações, à imprevisibilidade das
intempéries e dos cataclismas naturais, restando as preces a intervenção divina para que
haja o bom tempo. Uma outra característica da mudança de visão sobre o tempo é em
relação a organização de rede comercial, sendo assim o tempo passa a ser objeto de
medida, como por exemplo a demora de uma viagem, por mar ou por terra, o problema
dos preços, o valor dos pedágios, a duração do trabalho artesanal ou operário para a
consecução daquele manufaturado impõem um cálculo cada vez mais apurado do tempo.
“O historiador Le Goff diz que o ganho do mercador pressupõe uma hipoteca sobre o
tempo, que a Deus pertence” (1993, p. 43). Isso porque para o homem medieval é muito
forte a consciência de que o tempo pertence a Deus:
“Para se ter uma ideia de como se imaginava isso, pense na venda de
um objeto com pagamento imediato ou com pagamento depois de um
certo tempo ou a prazo. Para os medievais não era lícito vender o
mesmo objeto cobrando mais porque o comprador não podia pagar
vista, pois nesse caso, o vendedor estaria cobrando por algo que não
lhe pertence: o tempo. Ainda está presente na sociedade a concepção
que somente Deus é o senhor do tempo, isto é, o tempo a Deus
pertence.” (BERNARDI, 2019)
Portanto as torres de relógios é uma forte provocação sobre a visão de tempo do homem
medieval, o tempo sendo medido de forma diferente, através de um relógio mecânico,
autônomo, onde na compreensão da época a divindade pela natureza, marca os tempos e
estações, aos poucos o trabalho vai se tornando assalariado, sendo assim é aos poucos
aproximada a concepção de tempo e dinheiro, a quantia de tempo trabalhado é
relacionado ao valor do salário. Assim como o tempo para o transporte de mercadoria,
valores de pedágios, logo vai surgindo para alguns a ideia de que o tempo está relacionado
ao dinheiro e aos poucos para muitos é enfraquecida a relação da pertença tempo a Deus.

Frei Mendelson Branco da Silva, OFM

Referências bibliográficas:
BERNARDI, Frei José. O TEMPO E O DINHEIRO NA IDADE MÉDIA. [S. l.], Junho 2019.
Disponível em:
http://www.estef.edu.br/moodle/pluginfile.php/15667/mod_resource/content/1/O%20T
EMPO%20E%20O%20DINHEIRO%20NA%20IDADE%20MEDIA.pdf. Acesso em: 4 jul.
2019.
LE GOFF, Jacques. Para um Novo Conceito de Idade Média: tempo, trabalho e
cultura no Ocidente. Lisboa: Estampa, 1993.
MORAES, J.G.V. Caminhos das Civilizações. São Paulo: Atual, 1998.