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CARTA COMPROMISSO DO I ACAMPAMENTO DE JUVENTUDES E ESPIRITUALIDADE LIBERTADORA

Do dia 13 a 15 de setembro de 2019, nós, jovens e adultos de diferentes lugares do nordeste, culturas, experiências, vivências, religiões e espiritualidades nos reunimos no Convento Nossa Senhora dos Anjos de Penedo/AL, para escutar, partilhar e vivenciar noprimeiro acampamento de juventudes de espiritualidade libertadora. Caudalosos de sonhos e utopias sob a esteira de uma sociedade mais justa e fraterna em que as relações pessoais, sociais, políticas, econômicas, culturais, religiosas, afetivas e com a criação toda, sejam caracterizadas pela vivência de valores e princípios éticos do res-peito mútuo do diferente. Reunid@s nas plenárias, oficinas e partilhas, pudemos forta-lecer nossa espiritualidade. Aquela força que nos motiva, seja a partir da fé em Deus, a fé em Jesus Cristo, seja a partir da fé em outras entidades divinas ou pela fé numa forçaque transcende o indivíduo reafirmamos o nosso compromisso para que todos tenhamvida em dignidade.

Reconhecemos que a espiritualidade é uma dimensão fundamental e constitutiva do ser humano. Todas as pessoas são essencialmente espirituais, e o espiritual diz respeito a essa dimensão mais profunda da vida humana que mexe com os sentimentos, valores, princípios, desejos, sonhos, impulsos, com aquilo que nos move, nos faz uma realidadedinâmica, aberta e em construção. Assim, afirmamos a importância da espiritualidadelibertadora, que se expressa no compromisso e na militância por uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária e na responsabilidade pela qualidade de nossas ações e de nossos relacionamentos em nível coletivo e individual. Percebemos que ela nos desins- tala, nos arranca de nós mesmos e ao mesmo tempo nos impulsiona, nos mobiliza e nos leva ao encontro dos outros e do transcendente, esta energia que nos move.

Ante as provocações da realidade que reprime, que corta sonhos, que marginaliza pes- soas e grupos por causa de sua fé, de seus pensamentos, de seu estilo de vida, muitasvezes por pessoas e grupos que justificam esses seus comportamentos também emnome da fé ou a partir de desejos de poder sobre o outro, e da convicção que somente eles são donos da verdade. Essa realidade justamente nos provoca para uma opção pe- las pessoas excluídas em nome de pensamentos absolutos e ideologias fechadas que representam verdades absolutas, por um sistema neoliberal que tem como seu deus o dinheiro e o lucro, em que a pessoa somente é uma peça. Denunciamos que temos sentido cada vez mais os impactos das manobras de desmonte de diversos programas sociais e políticas púbicas promovido pelo atual governo, impactos estes que tem atingi- do principalmente os mais pobres e os jovens. Já temos jovens fora das universidades por não ter como se manter. Jovens sem emprego e a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado no Brasil. Além do grande número de jovens com depressão e sem pers- pectiva de vida.

Assim, com humildade e rebeldia amorosa assumimos os seguintes compromissos con- cretos em nosso ambiente de vivência:

– discutir com espírito dialogal nas nossas famílias, com nossos amigos e colegas, na vizinhança, nos grupos de Igreja e outros grupos de base onde estamos diretamente envolvidos a nossa realidade como jovens hoje e os nossos sonhos em vista de políticas públicas que favorecem a vida e o desenvolvimento da juventude,

– engajar-nos nos diversos grupos estudantis, sindicatos, associações e até partidos políticos defendendo o ensino público do primário até a universidade como principais instituições do ensino,

– exigir a retomada das bolsas de estudo sobretudo para os menos favorecidos e para pós-graduação e pesquisa;

– discutir e discernir em vista das eleições municipais as propostas dos candidatos para prefeito e vereadores;

– animar as famílias e amigos, amigas e colegas a votar no dia 6 de outubro para os Conselhos tutelares de Infância e Adolescentes e votar em candidatos que realmente defendem os interesses das crianças e adolescentes;

– denunciar e lutar contra o racismo e o extermínio crescente de jovens negros e pobres particularmente nas periferias das nossas cidades;

– combater o capitalismo, o patriarcado e o machismo, que (des)estruturam a nossa casa-comum e destroem e ceifam as vidas de tantas mulheres e desumanizam os ho- mens;

– respeitar as pessoas homossexuais, lésbicas e transexuais que sofrem crescentes preconceitos e fobias na família, na comunidade em que habitam e na sociedade, para que possam viver a seu relacionamento de amor livre e responsavelmente;

– contestar a influência do fundamentalismo religioso nos diversos setores das institui-ções do estado sobrepondo convicções estritamente religiosas e doutrinais preconceitu- osas e excludentes, que comprometem a garantia do Estado Laico;

– lutar contra todo tipo de atitude ou expressão de intolerância religiosa e cultivar o diá- logo inter-religioso e com outros grupos da sociedade,

– engajar-se na luta pela justiça no campo, pela realização de uma reforma agrária popular pela demarcação das terras indígenas e das terras ancestrais dos quilombolas e outras comunidades tradicionais, como também pela integridade de suas culturas. Es- sas dimensões são fundamentais para evitar o genocídio destas populações;

– sensibilizar e assumir a defesa de uma justiça socioambiental que garanta a vida do nosso planeta e de seus habitantes, assegurando os recursos naturais para as futuras gerações;

– participar ativamente no processo da reforma do sistema político brasileiro;

Os nossos corpos se libertam, dançam e sambam, nossa voz se liberta e canta em bus- ca de uma espiritualidade que liberta para fazer o bem, para construir uma humanidade de paz. Que a espiritualidade libertadora ecoe em nós o desejo de dias melhores por meio de nossas lutas diárias nos diversos locais no qual estamos inseridos. E que esta espiritualidade se alimente da mesma mística do transcendente que para os cristãos e cristãs Jesus expressa no Evangelho de João (10,10) desta forma: Eu vim para que tenham a vida, uma grande vitalidade (tradução da Bíblia do peregrino).