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A VIDA DE MINORIDADE DE SANTA CLARA DE ASSIS POR FREI MENDELSON BRANCO

O movimento franciscano, enxerga a vida de minoridade como um pilar importante do carisma, e este se dá na relação com o outro, com a fraternidade, na proximidade. O olhar de irmão e irmã menor, é uma forma de ser e estar no mundo, uma relação de seguimento dos passos do próprio Cristo, Humilde e Crucificado.

“Ser irmão, ser irmã menor é ver no outro alguém maior, digno de respeito e reverência, porque criado à imagem e semelhança de Deus. A minoridade franciscana e clariana implica na atitude de saída de sí mesmo para colocar-se, com humildade, a caminho do encontro com o outro, a fim de servi-lo em suas necessidades e dele cuidar.” (AZEVEDO)

Este serviço é uma atitude de proximidade com o outro, aqui pode-se compreender com a atitude do serviço, uma dimensão importante da vida de minoridade. Isso implica em muitas vezes, sair de si e ir ao encontro do outro, onde ele está e muitas vezes não onde eu desejaria estar, na simplicidade do gesto de abaixar-se colocando-se na posição de igualdade em relação ao outro. A minoridade como forma de ser, se traduz como uma atitude interior na relação com o outro, tomar consciência da relação de interdependência entre os irmãos e irmãs criaturas do Altíssimo Senhor, reconhecendo a presença grandiosa de Deus na vida do(a) irmão(ã), mesmo em nossa fragilidade e pequenez, “A minoridade contrapõe-se à autossuficiência e ao sobrepor-se aos outros”(AZEVEDO).

Quais as características da minoridade vivida por Clara de Assis e suas Irmãs? Podemos refletir algumas características que revelam um pouco da espiritualidade de Santa Clara de Assis, pelo menos as que nos apresentam as fontes Francisclarianas.

 

  1. Minoridade clariana no serviço

Nos Evangelhos, a reverência do Cristo é revelada nas atitudes, na inclinação do corpo, como por exemplo o lava pés, neste gesto se revela o amor do mestre através da minoridade do serviço para com o outro. Santa Clara de Assis busca a prática da minoridade do serviço. Os testemunhos de suas irmãs no processo de canonização, revelam suas práticas:

“Quando mandava às irmãs que fizessem alguma coisa, fazia-o com muito respeito e humildemente e, a maior parte das vezes, preferia fazer ela mesma em vez de mandar as outras”[1]

“Era humilde, benigna e amável para com suas irmãs. Servia-as e lhes lavava os pés e derramava àgua em suas mãos.”[2] ”À noite cobria as irmãs por causa do frio”[3].

“Contentava-se com uma só túnica de pano rude e um manto. E se alguma vez via alguma túnica das irmãs que era mais vil do que ela estava usando, tomava-a para si e dava à irmã a sua melhor”.[4]

Santa Clara de Assis em seus gestos demonstra esta dinâmica do ir ao encontro com o coração aberto para aqueles e aquelas que mais necessitam, Clara de forma gratuita se abaixa para servir os que sofrem as enfermidades físicas, sociais e espirituais, aliviando o fardo, pelo exemplo do amor misericordioso do Cristo humilde e crucificado.

“Quando via alguma irmã em tentação ou tribulação, chamava-a em particular e consolava-a entre lágrimas e às vezes até se prostrava a seus pés[5]

“ Foi diligentíssima na exortação e no cuidado das irmãs, sendo compassiva com as doentes[6]

“Tinha grande compaixão pelas irmãs e pelos aflitos[7]

  1. A minoridade clariana na pobreza

Para maior parte da sociedade atual, a pobreza se compreende apenas como uma situação social de quem não tem moradia, não possui o alimento, a falta de recursos próprios para saúde básica e estudos. Essa pobreza existe, mas não é a pobreza dos votos religiosos. Esse tipo de pobreza deve ser combatida por se tratar de uma injustiça social. A vida de pobreza e simplicidade de Santa Clara de Assis é a do Cristo:

“ A pobreza de Jesus é ter nascido pequeno e humilde, quando poderia ter vindo na grandeza de Deus. O Jesus do presépio mostra que podemos reagir a uma das maiores tentações: possuir tudo que cair sob nossos olhos, o que cria a pobreza social. Quem possui tornar-se dono. Jesus não quis ser dono de nada.” (PEDROSO)

É buscar a pequenez em uma vida pobre como o Cristo foi humilde e pobre, Santa Clara desde o início da Ordem, defendeu o “privilegio da pobreza”, guardando a ela e as irmãs de possuírem alguma coisa que desviasse os seus olhos do crucificado, pobre e humilde, ao qual elas tinham como modelo a seguir. Todas eram irmãs, e não havia entre elas privilegiadas, mesmo as que vinham de uma família rica, todas buscavam ser irmãs menores. O Papa Gregório IX ao visitar Santa Clara lhes propôs, como está escrito na Legenda de Santa Clara (LSC):

“ O Senhor Papa Gregório, de feliz memória, digno de veneração pelos méritos pessoais e mais ainda pelo cargo , amava com especial afeto paterno a nossa santa. Quando tentou convencê-la a aceitar algumas propriedades que oferecia com liberdade pelas circunstâncias e perigos dos tempos, ela resistiu com ânimo fortíssimo e não concordou, absolutamente. Respondeu o Papa: “Se temes pelo voto, nós te desligamos do voto”, mas ela disse: ”Pai Santo, por preço algum quero ser dispensada de seguir Cristo para sempre” (LSC 14)

Na Segunda Carta de Santa Clara a Santa Inês de Praga ela aconselha que Inês “Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre”(2CtIn 18), isso se trata de se tornar pequena, menor, pobre, deixando o maior espaço interior para que Deus habite, quem deixa tudo para seguir os passos de Cristo deve abraça-lo com o coração pobre.

  1. Quais são hoje as realidades e situações que clamam pela vivência da minoridadevivida por Clara e Francisco?

A minoridade a qual São Francisco e Santa Clara de Assis, buscaram viver e ensinar aos seus irmãos e irmãs, é um sinal profético nos tempos atuais, uma espiritualidade que se dá na relação de proximidade com o outro mas não para se sobressair ou através de interesses próprios, mas sim uma saída de si, uma saída de seu egocentrismo, individualismo, prepotência para  encontrar com o irmão e a irmã, construir laços de fraternidade. Isso nos faz refletir a sociedade competitiva, onde os mais fracos são vencidos pelos mais fortes, onde os doentes, não são visitados ou não despertam em mim o desejo de me abaixar para lavar seus pés e tratar as enfermidades físicas, sociais ou espirituais. A minoridade desperta para a consciência da interdependência, entre os seres humanos e criaturas de Deus.

A minoridade deve motivar a abrir espaço dentro de si, para que Deus apareça e eu diminua, ter um coração pobre inspirado no coração de Cristo. A minoridade de reconhecer a pobreza de Cristo na manjedoura e também crucificado, revelando a grandeza de seu amor por nós, e por fazer a experiência desse amor, desejar através da minoridade de coração ir ao encontro do meu próximo para servir como irmão e irmã menor.

Frei Mendelson Branco da Silva, OFM

Referencias:

AZEVEDO, Irmã Mônica de. A minoridade em Clara de Assis. [S. l.], 2019. Disponível em: http://www.estef.edu.br/moodle/mod/resource/view.php?id=8126. Acesso em: 28 jun. 2019.

PEDROSO, Frei José Carlos Corrêa. O Cristo que ela abraçou. In: PEDROSO, Frei José Carlos Corrêa. Abrace o Cristo Pobre. [S. l.]: Centro Franciscano de Espiritualidade, 19??. Disponível em: http://www.estef.edu.br/moodle/pluginfile.php/15608/mod_resource/content/1/O%20Cristo%20que%20ela%20abra%C3%A7ou.pdf. Acesso em: 27 jun. 2019.

[1] 1ª testemunha

[2] 1ª testemunha

[3] 2ª testemunha

[4] 2ª testemunha

[5] 10ª testemunha

[6] 6ª testemunha

[7] 3ª testemunha