,

Artigo | REFLEXÃO ACERCA DO TEXTO, “A NATUREZA DA LITURGIA CRISTÔ, DE MATIAS AUGÉ, SOBRE O VERDADEIRO SENTIDO DA PALAVRA LITURGIA

O texto “A natureza da Liturgia Cristã” nos mostra o sentido do termo liturgia que deriva do grego clássico, das palavras laós (povo) e ergon (obra), e significa serviço prestado ao povo. Vem de um contexto social e político onde cidadãos ricos e bem-sucedidos serviam as pessoas pobres e eram merecedores do reconhecimento da sociedade. Podemos perceber daí que o sentido da palavra liturgia designava, a princípio, um serviço público e social que ao longo da história torna-se um ato privado, começando a fazer parte do culto e rito do Antigo Testamento.

Queremos ressaltar que o termo liturgia está presente em vários sentidos, inclusive no tempo presente. Segundo o texto nencionado, as cerimonias políticas e teatros gregos eram formas de liturgia. Também nas diversas religiões existem ritos e liturgias que lhe são próprios. Na Igreja Católica Cristã que está presente nas diversas realidades, há também um modo específico de celebrar levando em conta a cultura dos diferentes povos sem, no entanto, perder de vista o dom da unidade na Pessoa de Jesus Cristo que, através do seu Espirito torna a todos um só corpo, onde Ele é a cabeça.

Com sua encarnação, Jesus Cristo inaugura para todos um novo jeito de liturgia dando um novo sentido. Sem deixar a antiga forma litúrgica e seus ritos, porém com um rompimento e sentido espiritual, com toda autenticidade na força do, Espirito dá vida ao rito e torna a liturgia viva através de sua própria vida e ensinamentos, pois ele mesmo diz: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revoga-los, mas dar-lhes pleno cumprimento. (Mt 5, 17). Nesta passagem, Jesus nos mostra o verdadeiro sentido da Lei, pois, na mesma linha dos profetas Cristo denunciava suas práticas externas e seus corações duros, daí percebemos que o pecado de Israel foi endurecer seu coração ao Espirito de Deus apegando-se somente a Lei, aos preceitos e aos ritos externos, esquecendo do ponto principal que é o amor a Deus de todo coração e ao próximo como a si mesmo, pois são desses dois mandamentos que dependem a Lei e os Profetas. (Mt 22, 37-40).

Santo Agostinho nos recorda em seu livro “A verdadeira Religião” que: “O modelo perfeito de homem a se seguir é Jesus Cristo”. Ele é modelo de serviço a Deus e ao próximo, pois, não precisou de sacrifícios externos, foi sacerdote, altar e vítima, oferecendo a si mesmo ao Pai, sendo também templo vivo. E nós cristãos somos convidados a nos tornar liturgias vivas, oferecendo a Deus o nosso coração com o serviço que nos foi confiado no mundo e realidade atual que vivemos. Podemos nos perguntar, como ser cristão no mundo de hoje? É hora de desconstruir o conceito de liturgia que muitas vezes trazemos em nós, reduzindo somente ao rito da celebração e paramentos, não passando disso. Mas que ao mesmo tempo faz parte do rito da nossa Igreja Católica, sendo importante para nossa fé e tendo um grande significado para a vivencia e dignidade daquilo que é celebrado, que com sobriedade precisamos conservar.   O próprio Jesus nos ensina que rito e existência não se dividem, vive-se juntos no cotidiano da vida, principalmente no amor e perdão.

Devemos ser liturgias vivas no mundo, em particular nas realidades que são descartadas e desfavorecidas por muitos. Sendo assim, nosso culto e verdadeiramente de coração contrito estaremos ao redor do altar, participando da vida, morte e ressurreição de Jesus, comungando seu corpo e sangue, atualizando na história aquilo que o Senhor um dia instituiu na ceia pascal nos dando um novo mandamento: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos se tiverdes amor uns pelos outros”. (Jo 13, 34-35)

Portanto, liturgia, culto e rito tornam-se vivos e vivificantes sem nenhum tipo de peso, quando deixamos que a ação do Espirito atualize em nós os sentimentos de Cristo Jesus, pois, aquele que faz a experiência com o Cristo pobre e crucificado é capaz de se tornar um outro Cristo no mundo, sendo uma pedra viva na Igreja, na sociedade e por onde passar.

 

Frei João Pedro de Lima Costa, OFM