,

Páscoa: Do Silêncio ao canto do Aleluia

“Exulte o céu, e os anjos triunfantes, mensageiros de Deus, desçam cantando; façam soar trombetas fulgurantes, a vitória de um rei anunciando.

Alegre-se também a terra amiga, que em meio a tantas luzes resplandece; e, vendo dissipar-se a treva antiga, ao sol do eterno brilha e se aquece.

Que a Mãe Igreja alegre-se igualmente, erguendo as velas deste fogo novo, e escute, reboando de repente, o aleluia cantado pelo povo…

Ó noite em que a coluna luminosa as trevas do pecado dissipou, e aos que creem no Cristo em toda a terra em novo povo eleito congregou! …

Ó noite de alegria verdadeira, que prostra o faraó e ergue os hebreus, que une de novo ao céu a terra inteira pondo na treva humana luz de Deus.”

Estes são alguns versículos da solene Proclamação da Páscoa do Senhor cantada na Vigília Pascal. Através dela e das diversas leituras do Antigo e Novo Testamento se anuncia a Ressurreição do Senhor, a vitória definitiva da vida sobre a morte. Nesta noite lembramos grandes ações do amor de Deus na história da Salvação: a criação, a libertação da escravidão do Egito e sua Aliança feita, o testemunho e as palavras dos profetas e como momento culminante dessa história da Salvação, a Ressurreição do Senhor Jesus Cristo. Através da Ressurreição, Deus Pai sela toda a vida e ação de seu Filho Jesus como verdadeiro. Somente após a Ressurreição os próprios discípulos de Jesus reconhecem definitivamente, também, que ele era o Messias esperado.

A Ressurreição significa a definitiva reconciliação de Deus com toda a humanidade e a criação inteira. “E, vivendo agora retamente possais no céu unir-vos a Deus, para o qual, pela fé, já ressuscitastes no batismo.” (Benção pascal)

As leituras do Domingo da Páscoa da Ressurreição deste ano nos falam das dificuldades dos discípulos e discípulas para entender o que aconteceu. O Evangelho de João nos comunica: Maria Madalena foi ao túmulo, certamente com saudades do Senhor, de sua ternura e atenção sobretudo para com os pobres e pequenos, com aqueles que o sistema religioso do templo declarou impuros e indignos de aproximar-se ao mundo sagrado. Ela viu a pedra removida e anunciou isso ao Pedro e o outro discípulo. Pedro e outro discípulo corriam ao túmulo. Pedro e o outro discípulo entraram. Depois voltaram para a casa. João nos mostra a surpresa e também a dúvida dos discípulos sobre o túmulo vazio, lençóis e sudário abandonados, mensagens de terceiros e ainda por uma mulher que não podia ser testemunha. Confusão entre os seus seguidores.

Ninguém viu a Ressurreição. Por isso se canta na Vigília Pascal: “Ó noite em que Jesus rompeu o inferno, ao ressurgir da morte vencedor; de que nos valeria ter nascido se não resgatasse em seu amor?” A Ressurreição somente pode ser experimentada pela fé. Ela transcende a percepção humana sensível. Somente aos poucos os discípulos e as discípulas conseguem interpretar a vida toda de Jesus e especialmente os acontecimentos desde o seu julgamento, a cruz e a morte até a ressurreição. Depois da Ressurreição Jesus se aproxima aos discípulos de forma diferente, aparece e desaparece de repente.

Certamente muitos tem dúvidas, referente a Ressurreição. Muitos cristãos e cristãs não creem com fervor na Ressurreição de Jesus Cristo. É uma característica do nosso tempo que o ser humano somente olha para essa vida, se perdeu a sensibilidade e o sentido pelo transcendente, pela vida além da morte.

Quero convidar a vocês para meditar o Evangelho de Lucas 24,13-35. O leiam atentamente e depois façam uma releitura pausada olhando cada frase e a ação de Jesus, assim como, a reação dos discípulos. Destes, um tem nome, o outro não, podia ser cada um de nós.

Os discípulos desanimados voltam a sua casa, no caminho Jesus faz companhia a eles sem que percebam que é Jesus. Ele escuta as suas decepções e lamentações e inicia uma catequese explicando a Escritura e as Promessas do Antigo Testamento à luz da Ressurreição. Finalmente chegam em casa e eles o convidam para ficar, porque já é tarde mais muito mais porque os seus corações estão ardendo enquanto Jesus explica a Sagrada Escritura. Percebem que ele fala com autoridade, mas não desconfiam que podia ser o próprio Jesus. Somente quando ele toma o pão da mesa do jantar em suas mãos, o abençoe e o partilha, os seus olhos se abrem e, ao mesmo tempo, Jesus se retira; a catequese e finalmente a celebração da partilha do pão os converte em mensageiros. Deixemo-nos também nosso coração arder pelas palavras de Jesus e transformar nossa escuta em ação solidária no mundo de hoje, ser mensageiros de esperança, de fé e de amor.

Querer entender a Ressurreição pela razão, como conceito abstrato, então nunca a entenderemos. Somente entende a Ressurreição quem se levanta para caminhar saindo de si para ir ao encontro dos outros; para anunciar a Boa Notícia; para partilhar a sua vida com a vida dos outros, sobretudo com os mais pobres e desprezados; para acompanhar ativamente a sua luta e seu esforço para viver uma vida mais digna em solidariedade e fraternidade, em paz e com respeito a integridade da criação.

“Viva a vida!” – Cristo Ressuscitou, verdadeiramente! Feliz Páscoa!

A páscoa na ótica Franciscana

“Francisco exortava os irmãos que celebrassem a Páscoa do Senhor continuamente em pobreza de espírito, ou seja, o trânsito desta vida a vida eterna, a passagem deste mundo para o Pai” Legenda Maior

O Sábado Santo nos convida ao silêncio. Jesus está no sepulcro, mas nossa fé e esperança não estão encerradas nele, mas sim neste mesmo Cristo que ressuscitou. Francisco compôs um belo cântico de louvor às Criaturas e foi durante o seu Trânsito, no final de sua vida, que nosso irmão menor agregou uma estrofe em que saúda a Irmã Morte. Mas podemos nos perguntar, como chamar a morte de irmã? Francisco soube compreender a totalidade da vida, onde também a morte faz parte. A palavra páscoa significa passagem, onde lembrava no antigo testamento a libertação dos hebreus da escravidão do Egito. Assim com este mesmo caráter Francisco pedia para que seus irmãos vivessem esta festa, lembrando sempre que a forma de vida franciscana estava também baseada no exercício de viver uma constante passagem, como peregrinos e Forasteiros neste mundo vivendo sem nada de próprio e na itinerância. Nosso irmão menor conseguiu fazer este exercício pois permitia que o próprio Deus passasse por sua vida transformando o que era amargo em doce e suas tristezas em alegrias. Para celebrar a Páscoa de Cristo só quem entende que a verdadeira alegria deste dia está centrada em um Cristo que de tudo desapegou e vive.

DICAS PARA CELEBRAÇÃO EM FAMÍLIA

Montar um local com panos brancos, uma vela em destaque, se possível fazer um desenho como uma cruz ou algum símbolo cristão pascal; uma tigela com água para lembrar do batismo; um pouco de óleo para lembrar da unção batismal e um outro recipiente com sal para lembrar de nossa missão. Colocar na mesa alguns papéis que estarão escritos os diversos sinais de esperança e vida nova que vemos em meio a esse tempo de pandemia.

Frei Walter Sheireber / Frei Roberto Alves / Frei Willames Batista, OFM