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Sexta-Feira Santa: A Paixão do Senhor

Sexta-feira Santa é o dia em que a Igreja celebra a morte de Jesus na cruz. Essa morte é fruto de sua fidelidade a sua missão confiado a Ele por Seu e nosso Pai. Por isso devemo-nos lembrar o início da missão de Jesus. Após ser apresentado por Deus Pai como seu Filho querido, como seu predileto (cf. Mt 3,16s), o mesmo espírito que o concebeu, que desceu sobre Ele no batismo agora o leva ao deserto para que Ele possa discernir profundamente a sua missão neste mundo em que Ele se encarnou e se tornou um Deus conosco, Emanuel (cf. Mt 1,23). No deserto Jesus renuncia ao papel de Messias poderoso em termos de poder político, econômico e religioso (cf. Mt 4) para restaurar o Reino de Israel, livre de ocupações de estrangeiros e com o templo erguido em Jerusalém como moradia de Deus. No Evangelho da entrada triunfal em Jerusalém (Mt 21,9 e Mc 11 9s) se faz ainda presente essa expectativa quando o povo canta “Hosana ao filho de Davi!” No deserto Jesus descobre que o seu testemunho é o serviço, doar-se totalmente pelos outros até a morte na cruz. É o espírito e a atitude do Servo Sofredor (cf. Is 42,1-9; 49,1-13; 50,4-9; 52,13-53) apresentado pelo profeta Isaias: “Por esta vida de sofrimento, alcançará luz e uma ciência perfeita. Meu servo o justo fará justos inúmeros homens, carregando sobre si as suas culpas. … na verdade, resgatava o pecado de todos e intercedia em favor dos pecadores.” (Is 52,11s). No decorrer de sua vida, Jesus percebe que essa sua missão não está sendo entendido pelos doutores da Lei e os sacerdotes do templo e por isso procuram matá-lo (cf. Mt 26,1-5;Mc 14,1s; Lc 22,1s; 11,45-53).

A partir da Encarnação e, consequentemente, da vida de Jesus nesta terra, a sua morte na cruz é fruto de sua fidelidade a missão do anúncio do Reino de Deus entregue a Ele por seu Pai. Uma missão pela qual Jesus também sentiu a angústia diante das consequências, isto é, a sua rejeição e a sua possível morte, quando Ele diz aos seus discípulos: “Sinto uma tristeza mortal; ficai aqui vigiando. Adiantou-se um pouco, prostrou-se por terra e orava para que, se fosse possível, se afastasse dele aquela hora. Dizia: Abba (Pai), tu podes tudo, afasta de mim essa taça. Mas não se faça a minha vontade, e sim a tua.”

Jesus em tudo igual ao ser humano menos no pecado, o Inocente se oferece por esta fidelidade e obediência até a morte na cruz, ele mesmo se torna o cordeiro que se oferece para nos salvar definitivamente por este único sacrifício para sempre. Por isso a Igreja não celebra na Sexta-Feira Santa a Eucaristia. Ele mesmo se ofereceu. Assim Jesus se torna o verdadeiro e único Sumo Sacerdote e nosso Salvador que nos reconcilia definitivamente com o Pai misericordioso. “Na consumação de sua vida, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem.” (Hebr. 5,9).

Diante da morte surge a pergunta para cada um de nós, qual é o meu relacionamento com a morte. A resposta depende da minha fé. Considero a morte como uma porta para a vida eterna, isto é, para ver Deus face a face como plenitude da minha esperança; ou temo a morte por causa do estilo da minha vida em que Deus e o Evangelho tinham pouco lugar ou nenhum; ou vejo a morte como frustração existencial, porque ela me mostra radicalmente o fim da minha vontade e do meu domínio sobre mim mesmo?

Mas a partir da encarnação e da vida de Jesus, testemunhando os valores do Reino de Deus a morte tem também uma dimensão social. Toda essa reflexão quer consolar e provocar, ser um convite para refletir, meditar e sobretudo rezar diante da morte como mistério da vida.

Diante da pandemia como consolar os parentes e amigos por causa da morte de uma pessoa querida? Uma pessoa que morre antes do tempo porque não encontrou apoio na rede de saúde por causa da falta de leitos, de aparelhos de respiração, de oxigênio ou da irresponsabilidade de governantes que simplesmente negam a existência da pandemia ou desmontam pelas suas ações o sistema público de saúde ou por falta de solidariedade da população observando as orientações dos órgãos de saúde?

Como consolar as famílias que perdem um ente querido por causa da violência descontrolada e falta de segurança, por falta de respeito da saúde no trabalho através das leis trabalhistas?

Mais ainda, como compreender a morte como fruto de uma sociedade desigual, egoísta e individualista, numa sociedade cheia de injustiça social sobretudo quando se trata dos pobres e marginalizados, ou fruto de um ódio semeado na sociedade e até por cristãos e cristãs?

Nestas dimensões a morte se torna algo social e até política, a cruz na qual Jesus morreu é um apelo às nossas responsabilidades como cidadãos e cidadãs, qual é nosso compromisso com a vida dos nossos irmãos e irmãs, com a construção de uma sociedade mais justa e fraterna como sinal do Reino de Deus? Papa Francisco fala da amizade social. Não morreu Jesus por ela? Também isso deve estar presente na memória da morte de Jesus na Sexta-Feira Santa.

Finalmente, a última Palavra é a Ressurreição, é a vitória da vida, é a nossa fé.

Gostaria finalizar com o trecho da poesia do Cântico do Sol de São Francisco que fala da morte depois de ter louvado toda a criação. “Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã, a Morte corporal, da qual homem algum pode escapar. Aí dos que morrerem em pecado mortal! Felizes os que ela achar conformes à tua santíssimo vontade, porque a morte segunda não lhes fará mal!” (CantS 14s)

Viva a Vida!

A SEXTA FEIRA SANTA NA ÓTICA FRANCISCANA

“Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as vossas Igrejas que há em todo o mundo, e vos bendizemos, porque, pela vossa Santa Cruz remistes o mundo” Testamento 5

A imagem da Cruz, para Francisco, remete ao Amor. Remete ao Senhor que no ato de entrega total nos libertou e nos resgatou por amor.  A sua reverência à Santa Cruz está presente em seus escritos, nas suas vestes que lembra o sinal sagrado e na vida do irmão menor que chorava a Paixão do Senhor, anunciando que o Amor não é amado por onde passava. No início de sua conversão vemos que através de um encontro com o crucificado o mesmo escuta o apelo para reconstruir a Igreja de Cristo, no final de sua vida vemos que o mesmo recebe em seu corpo as marcas da Paixão do Senhor, suas chagas, assim podemos perceber que o santo de Assis cultivava todos os dias um perfeito amor ao Cristo pobre, humilde e crucificado. Tal ação de Francisco não pode ser compreendida como uma repetição de gestos ou simples sentimentalismo, mas um compromisso que levava o mesmo a olhar para as dores e chagas dos irmãos e ir ao encontro. Que o Jejum, a Caridade e a oração tão presente neste dia santo possa nos provocar e ter como fim último o compromisso com Deus e o próximo.

DICAS PARA CELEBRAÇÃO EM FAMÍLIA

Preparar um local com o crucifixo para um momento de reflexão em família. Uma reflexão pautada em um exame de consciência, um exame de nossos atos dentro da nossa família que tanto machuca, ou oprime, as vezes que não fomos sinal de vida. E, no final, fazer um momento de reconciliação, pois sabemos que a vida de Jesus não terminou na cruz, nela ocorreu nossa reconciliação, nela encontramos força e vemos a esperança da Vida verdadeira.

Frei Walter Sheireber / Frei Roberto Alves / Frei Willames Batista