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DAS REMINISCÊNCIAS DE UM ANO DESAFIADOR

“Histórias, nossa histórias. Dias de lutas, dias de glória”.

 

O trecho desta música nos apresenta uma verdade essencial: o Ser humano é a síntese de diversas histórias. Por isso, trazê-las sempre à memória é um exercício que deve ser fomentado em todos os momentos e em todas as ocasiões, principalmente naquelas mais significativas, pois essas datas comemorativas nos instigam a olhar o retrovisor da vida para aí refletir o desenrolar dos acontecimentos.

Claro que o tempo do Natal e as festas de fim de ano são períodos por excelência para uma reminiscência mais aprofundada do caminhar. Este tempo nos instiga a perceber os “dias de lutas e os dias de glória” que tivemos ao longo do ano. Hoje podemos olhá-los, relembrá-los, e perceber quais marcas nos deixaram. Os fatos ruins nos ensinam sobre finitude, sobre nossa limitação. Os fatos bons nos lembram de que existem pessoas ao nosso lado, que caminham conosco, que nos incentivam a sermos melhores, a nos superar e buscar evoluir todos os dias.

Nossa fraternidade foi convidada a mergulhar neste mar de lembranças, de recordações, para também entender os dias de lutas e glórias que tivemos ao longo de nossa trajetória durante o ano de 2020. Quanta coisa vivemos, quantos sentimentos, sensações e emoções experimentamos ao longo de todos estes dias.

Quantas pessoas surgiram no nosso caminho que foram expressão de Deus em nossa vida. Quantos amigos novos tivemos a oportunidade de fazer, quantos outros perdemos. De uns nutrimos terna saudade, de outros nem tanto, de uns ainda preferimos esquecer. Quantos momentos incríveis passamos juntos de nossos amigos. Quantos passeios, brincadeiras, risadas e aventuras nos proporcionaram. Nossos amigos são a família que nosso coração escolheu.

Além de tudo isso ainda existe aqueles queridos de nossa família, que em tudo quer ver nossa felicidade e vitória. Quanta alegria cresce no coração quando nos lembramos de seu amor, carinho e cuidado. Todas as vezes que nos sentimos tristes, podemos lembrar os afagos de nossa mãe, a firmeza de nosso pai ou o companheirismo de nossos irmãos. A tristeza se vai, porque podemos fazer a experiência de ser amado e percebido como único. Nossa família tem esse poder. Também não podemos esquecer-nos dos nossos entes queridos que partiram deste mundo. Deles trazemos saudades e a terna esperança que com eles nos encontraremos no céu.

Como os nossos grupos vocacionais marcaram nossas vidas ao longo deste ano que se esvai e de tantos outros que já se foram. Com eles vivemos e trilhamos as sendas da descoberta da vontade de Deus para nossas vidas. Cada um que compunha esses grupos nos cativou com sua característica pessoal, seu modo de agir, etc. Sem falar dos nossos promotores vocacionais. Eles tiveram a importante missão de apresentar o carisma da fraternidade, que lá no início de nossa caminhada, cativou nossos corações. Quantas partilhas, quantas conversas à mesa, quantas conversas pessoais e quantas orações comuns pudemos vivenciar naqueles dias nos conventos que nos acolhiam mensalmente. Se olharmos com atenção, até as longas e fatigantes viagens, com todos os seus desafios, trocas de ônibus e aventuras nas estradas mundo afora, que precisávamos enfrentar na busca pela vontade de Deus, hoje, são capítulos a mais no longo livro de nossas vidas.

Os encontros de pré-postulantado trouxeram a cada um novas surpresas, novos encontros. Muitos de nós nem mesmo tínhamos saído de nossos estados de origem. Mais uma aventura. Sair de nossa casa, ir para outra cidade, muitos quilômetros distantes das nossas, para lá conviver com pessoas desconhecidas, mas que Deus resolveu escolher para vivermos juntos e partilhar a caminhada de discernimento vocacional de maneira mais profunda.

O livro de memórias de 2020 não estaria completo sem fazer menção desta terrível praga que perturbou, desestabilizou frustrou sonhos, projetos, que nos derrubou e lançou numa espiral de medo e apreensão. Não se sentido satisfeita, ainda tirou entes queridos nossos. Como foi difícil, bem no início, estar com a data de início de nosso postulantado marcada, com a vida organizada e, por conta desta moléstia, ter que esperar tanto tempo, com as incontáveis mudanças de datas, para finalmente fazer aquilo que tanto esperávamos: chegar à Triunfo.

E chegamos, estamos aqui! Precisamos lembrar com carinho a dedicação e disponibilidade de nosso promotor vocacional em desbravar muitos quilômetros, cortando quase todos os estados do Nordeste para nos trazer em segurança, sãos e salvos. Com humor e descontração pela quantidade de bagagens que trouxemos, Frei Joanan Marques nos deu a primeira grande lição da vida fraterna franciscana: precisamos ser como pais e mães para os irmãos.

À medida que os dias foram passando, que os meses foram se completando, que a convivência e a fraternidade começaram a exigir de nós novas posturas, novas formas de pensar e de agir, tivemos a oportunidade de perceber nossas diferenças e indiferenças. Como somos distintos uns dos outros!  Contudo, estes contrastes não devem ser motivos para fechamentos nos guetos de pensamentos. As diferenças são ocasiões onde temos a oportunidade de fazer a experiência da alteridade, da empatia. Se vasculharmos nossas memórias recentes, vamos encontrar tantos, mas tantos momentos bons que vivemos juntos até aqui.

Neste Natal muitos tiveram uma experiência nova e marcante, por serem as primeiras festas de fim de ano longe das famílias de sangue. A saudade nos fragiliza, nos deixam até um pouco tristes, porém a certeza que não estamos sozinhos, que não somos apenas um grupo que vive junto, mas uma fraternidade, uma sociedade nova, uma família, escolhida e formada pela e em busca da vontade do Bom Deus, serve como alento.

“Vide e vede como é bom e agradável os irmãos viverem juntos, bem unidos. Pois a eles o Senhor dá sua benção e vida pelos séculos sem fim” (Sl 133). Este salmo nos coloca no centro desta realidade e pode iluminar o ano vindouro. Na próxima retrospectiva teremos mais “Dias de glórias” para rememorar se o fizermos um exercício constante do nosso proceder. Ao mesmo tempo, mesmo pela distância física, estaremos ainda mais unidos com aqueles que deixamos em nossos lugares de origem.

 

Feliz novo Ano!

Feliz Vida!

Feliz fraternidade!

 

Postulante Gilberto Sales