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MEDITAÇÃO SOBRE O ENCONTRO DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS E O LOBO DE GÚBIO

Este relato dos Fioretti é bem conhecido por causa da riqueza espiritual desta fonte franciscana, tocou meu coração ler as linhas deste capítulo onde relata o encontro do Poverello(pobrezinho) de Assis e o irmão lobo, convido então você a mergulhar um pouco sobre a minha meditação e quem sabe nascerá também em seu coração novos olhares sobre este relato. Logo nas primeiras linhas é descrito o seguinte cenário.

“No tempo em que São Francisco morava na cidade de Gúbio, no condado de Gúbio, apareceu um lobo muito grande, terrível e feroz, que não somente devorava os animais, mas também os homens; tanto que todos os cidadãos viviam um grande medo, pois diversas vezes ele se aproximava da cidade. E todos andavam armados quando saíam da cidade, como se fossem combater. E mesmo assim não podiam defender-se do lobo se se encontrassem sozinhos com ele. E por medo desse lobo, chegaram a uma situação em que ninguém ousava sair fora da terra.”

É natural que o povo de Gúbio estivesse com medo deste lobo feroz, quantas e quantas vezes também nós sentimos medo do que não conhecemos, controlamos, ou seja diferente de nós, logo nos armamos para nos defender de tais situações, nos armamos por exemplo da desconfiança, da repulsa, do preconceito, e tantas outras posturas de ataque ou defesa. Será que temos na realidade medo de algum lobo feroz? Ou rotulamos alguém como um lobo asqueroso, medonho ou até mesmo desprezível ao qual devemos caça-lo?

“Por esse motivo, tendo São Francisco compaixão das pessoas da terra, quis sair para encontrar o lobo, ainda que os cidadãos em conjunto não o aconselhassem. Mas, fazendo o sinal da Santíssima cruz, saiu fora da terra, ele com os seus companheiros, pondo toda a confiança em Deus. E como os outros ficassem na dúvida se deviam ir mais adiante, São Francisco tomou o caminho para o lugar onde o lobo ficava.”

Chama-nos atenção a compaixão que Francisco sentiu pelo povo, e também nos chama a atenção o objetivo de Francisco, o relato nos diz que ele sai para “encontrar”, talvez se fossemos nós no lugar de Francisco sairíamos para caçar o lobo de Gubbio. Encontrar já demonstra uma predisposição a desarmar-se, apesar de os cidadãos não aconselharem Francisco a ir encontrar o lobo, observe que Francisco recebeu do povo de Gubio um pré-juízo um pré-conceito de quem era esse lobo, se tratava de um lobo feroz, mas Francisco com sua atitude pacifica de ir ao encontro do lobo desarmado tanto exteriormente como interiormente, torna-se um gesto de questionamento deste rótulo que fizeram do lobo “feroz”.

Quantas vezes nos enxergamos rotulando o próximo? E quantas vezes convencemos outros de que os rótulos que fizemos sobre o meu próximo eram reais e impossíveis que a pessoa mudasse ou amadurecesse? Nos tempos atuais a atitude de rotular, vem sendo cada vez mais comum, o diálogo está em crise, quantas pessoas e até mesmo famílias não são, violentadas pelos rótulos? Francisco deseja enxergar além dos rótulos, deseja encontrar-se com o rotulado, com aquele que foi chagado com a idéia de violento e feroz.

Outra atitude que é interessante meditar é este trecho do relato “E como os outros ficassem na dúvida se deviam ir mais adiante, São Francisco tomou o caminho para o lugar onde o lobo ficava.” Muitas vezes por termos nossos pré-juizos, pré-conceitos sobre algo ou alguém, não temos coragem de ir ao encontro e realmente conhecer oque mais nos causa temor, repulsa ou indiferença. Por causa da compaixão e desarmado Francisco toma o caminho para o grande encontro com o verdadeiro rosto do lobo de Gúbio, desarmado de armas ou de rótulos, assim deve ser para quem deseja seguir os ensinamentos profundos desta espiritualidade franciscana, somos chamados a olhar o rosto do chagado, de perto e ali reconciliar ou reconciliar-se.

“Aproximando-se dele, São Francisco lhe fez o sinal da santíssima cruz, chamou-o a si e disse assim: “Vem aqui, frei lobo, eu te mando da parte de Cristo que não faças mal nem a mim nem a ninguém”. Coisa admirável de dizer! Logo que São Francisco fez a cruz, o lobo terrível fechou a boca e parou de correr; e, dada a ordem, veio mansamente como um cordeiro, e lançou-se aos pés de São Francisco, deitado.”

Claro que o lobo ferido pelos que estavam a volta, iria agir desta forma, com raiva mostrando seus dentes e preparado para atacar, na verdade sua reação é fruto do estimulo da violência que ele sofria, pois sempre que se aproximava do homem, ele era atacado, a natureza do lobo e sua experiencia violenta com o homem, o fez agir de tal forma, porém é necessário enxergar a atitude de Francisco perante o lobo “feroz”,  “São Francisco lhe fez o sinal da santíssima cruz”, quão ferido foi o Senhor Jesus injustamente na Cruz, tudo isso por amor, o lobo ferido pelo seu próximo talvez por não possuir uma racionalidade não compreenda o sinal da cruz, mas nós compreendemos… e depois Francisco diz : “Vem aqui, frei(Irmão) lobo, eu te mando da parte de Cristo que não faças mal nem a mim nem a ninguém”. A linguagem de Francisco é uma linguagem de paz e pacificadora, uma linguagem não violenta, o lobo queria ataca-lo mas se ver confuso com Francisco que deseja ama-lo como “frei(irmão) Lobo”,  e então “Logo que São Francisco fez a cruz, o lobo terrível fechou a boca e parou de correr; e, dada a ordem, veio mansamente como um cordeiro, e lançou-se aos pés de São Francisco, deitado.”, muitas vezes somos violentos e respondemos violentamente a violência que sofremos do outro, o lobo ferido pela violência do homem, encontra uma resposta de paz nas palavras de Francisco “irmão lobo”.

Será que estamos enxergando o próximo como irmãos e irmãs, ou a competitividade, a inveja, o orgulho, os pré-conceitos, pré-juízos que temos ou formamos, nos arma contra o meu próximo e já não o enxergamos como meu irmão e minha irmã? Será que estamos indo ao encontro do irmão e irmã com amor misericórdia? ou estamos sendo indiferentes ou até mesmo violentos de forma verbal, psicológica e até em casos extremos fisicamente?

“E São Francisco assim lhe falou: “Frei lobo, tu fazes muito danos por aqui, e fizeste grandes malefícios, estragando e matando as criaturas de Deus sem a sua licença. E não somente mataste e devorastes animais, mas tiveste a ousadia de matar pessoas, feitas à imagem de Deus. Por isso tu mereces a forca, como ladrão e péssimo homicida. E todo mundo grita e murmura contra ti, e toda esta terra ficou tua inimiga. Mas eu quero, frei lobo, fazer a paz entre tu e eles, de modo que tu não os ofendas mais e eles te perdoem todas as ofensas passadas, e nem os homens nem os cães continuem a te perseguir”.

Estas palavras por si falam muito ao nosso coração, “fazer a paz entre tú e eles”, a oração atribuída a São Francisco de Assis nos diz logo de inicio, “Senhor fazei de mim um instrumento de vossa paz”, achamos lindo quando rezamos ou cantamos esta oração. Atualmente mais do que nunca precisamos nos reconciliar mutualmente entre nós seres humanos, de diferentes raças, cor, religião, classe social, etc. Nos reconciliar mutualmente entre nós seres humanos e a criação de Deus, que está sendo violentamente agredida, quando vemos matas queimando ou sendo desmatadas, animais carbonizados, extração irresponsável das riquezas naturais, um descompromisso ecológico que é um pecado ecológico gravíssimo. Ou também reconciliar-se conosco, com meu eu ferido, com minha história, amar a Deus ao próximo e a mim mesmo.

“E inclinando a cabeça, mostrava que aceitava o que São Francisco dissera e queria observa-lo. Então São Francisco disse: “Frei lobo, porque te agrada fazer e manter esta paz, eu te prometo que te farei com que as pessoas desta terra te dêem continuamente a comida enquanto viveres, de modo que não sofrerás fome. Pois eu sei que foi pela fome que fizeste todo o mal. Mas como eu te concedo esta graça eu quero, frei lobo, que tu me prometas que tu não prejudicarás jamais a nenhuma pessoa humana nem a algum animal: tu me prometes isso?” E o lobo, inclinando a cabeça, fazia um sinal evidente de que estava prometendo. E São Francisco disse: Frei lobo, quero que me dês prova dessa promessa, para eu poder bem confiar”. E como São Francisco estendeu a mão para receber seu juramento, o lobo levantou a pata direita e a colocou mansamente sobre a mão de São Francisco, dando-lhe o sinal que podia.

Então São Francisco disse: “Frei lobo, eu te mando em nome de Jesus Cristo que tu venhas agora comigo, sem duvidar nem um pouco. Vamos confirmar esta paz, em nome de Deus”. E o lobo, obediente, foi com ele como se fosse um carneirinho manso. Vendo isso, os cidadãos ficaram muito admirados. E a novidade ficou logo conhecida por toda a cidade. Por isso todas as pessoas, homens e mulheres, grandes e pequenos, jovens e velhos, foram para a praça ver o lobo com São Francisco.”

E desta forma é celada a paz entre os homens e o Lobo de Gúbio,  que agora era para o povo deste lugar o irmão lobo, é preciso abraçar a mansidão de Cristo mais do que nunca, vemos muitos desejos de revolução no mundo, a vida de São Francisco de Assis, fez revolução e é revolução por causa de sua espiritualidade profunda,  revolução da vida fraterna entre o homem e a criação de Deus, a simplicidade de coração e a altíssima pobreza ao se comprometer a abraçar o Cristo pobre e crucificado, a minoridade, o diálogo e a paz. Que essa história de sabedoria e espiritualidade franciscana, nos ajude a semear a paz em todas as dimensões aqui refletidas, tanto de forma interior como de forma exterior, que possamos abraçar os lobos e semear a paz entre nós irmãos e irmãs. Paz e Bem!

Frei Mendelson Branco da Silva, OFM

 

REFERÊNCIAS

Fontes Franciscanas

Site: http://centrofranciscano.capuchinhossp.org.br/fontes-leitura?id=2886&parent_id=2864

 

Imagem: Estátua no Mosteiro Capuchinho de Cinque Terre, na Itália