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FREI ARTUR BRUNO FALA SOBRE “PNEUMATOLOGIA”, A PROPÓSITO DE UM VÍDEO DO TEÓLOGO VICTOR CODINA

A partir da observação e análise do vídeo “Pneumatologia Latino-Americana”, queremos apontar alguns pontos que nos chamam atenção na entrevista com o Teólogo Victor Codina, que em seu legado teológico lança um olhar para a 3ª pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito Santo, considerando-o princípio da vida humana, e de todo o cosmo; e definindo-o como centro da experiência de fé e da vida da Igreja.

Inicialmente, devemos ter em mente que o conceito de PNEUMATOLOGIA, se origina da palavra “Pneuma”, que vem do grego, e significa: espírito, vento, alento, vida. Assim, pneumatologia é o estudo teológico acerca do Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade. Sendo a 3ª pessoa da Santíssima Trindade, o Espírito, não possui um nome próprio, diferente do Filho, Jesus Cristo, Jesus de Nazaré. Ao se referir sobre o Espírito Santo, são utilizado símbolos, por exemplo a água, o vento, o fogo, o perfume, a pomba. Estes são símbolos cósmicos, e querem indicar que o Espírito inunda/preenche o universo sendo: vida, alento, ânimo, fogo, amor, alegria e gozo.

Nas Sagradas Escrituras, no Livro do Gênesis está escrito: “o sopro de Deus pairava na superfície das águas” (Gn 1, 2). O Espírito pairava sobre as águas da criação, gerando vida. É o mesmo Espírito que ressuscita os mortos, que anima os profetas, que gera Jesus no seio da Virgem Maria, que paira sobre Jesus no batismo e o ressuscita dentre os mortos, que se faz presente sobre a primeira comunidade, em Pentecostes, e a partir dele nasce a Igreja primitiva e ela caminha sob sua ação, sendo fiel ao Espírito de Jesus.

Aconteceu na história, no ano 1054, o cisma da Igreja – Igreja de Roma (OCIDENTE) e Igreja de Constantinopla (ORIENTE). A Igreja do Oriente manteve uma maior sensibilidade ao tema do Espírito Santo, marcada pela espiritualidade, mística, carismas, comunidade, liturgia, contemplação e símbolos. Para a Igreja Oriental, o Espírito procede do Pai. Do outro lado, a Igreja do Ocidente professando a mesma fé na tradição, crendo no Espírito Santo, mas por uma série de circunstâncias é deixado de lado. Na Igreja Ocidental, desde o século VI, se professa que o Espírito procede do Pai e do Filho. Esta compreensão não agrada aos orientais, pois se trata de algo que interfere no credo e dá uma impressão de que o Espírito Santo está como um apêndice. A consequência disso foi a acusação dos orientais de que os ocidentais vivem um Cristomonismo, ou seja, uma fé centrada mais na pessoa do Filho, Jesus Cristo. Deste modo, Codina nos apresenta que no Ocidente há pouca sensibilidade para com o Espírito Santo e isto produziu uma maior acentuação e importância para os elementos hierárquicos, dogmáticos e moralistas da vida cristã.

Ao se referir sobre as formulações teológicas construídas na História da Igreja, Codina nos explica sobre a profissão de fé, o Credo. O Credo niceno-constantinopolitano professa a fé nas três pessoas da Santíssima Trindade: Deus Pai, Jesus Cristo e o Espírito Santo. Sendo importante perceber e destacar que o Espírito Santo recebe a mesma honra e glória que são direcionadas ao Pai e ao Filho.

Na Teologia Medieval, se continuou a professar que o Espírito é quem anima a Igreja e dá a vida. No entanto, com o cisma em 1054 e até um pouco antes, a Teologia latina liga a imagem do Espírito à pessoa do Papa, à hierarquia e a algumas poucas pessoas místicas. A consequência disso é que cada vez mais este aspecto da ausência do Espírito Santo, que traz como consequência, a busca por “substitutos do Espírito”. Codina nos apresenta que nesse tempo existiram ao menos três “substitutos”: o Papa, Maria e a Eucaristia. Evidentemente não se pode preceder do Papa, pois cairíamos numa papolatria; nem de Maria, pois estaríamos vivendo uma mariolatria, que não é correto; nem da Eucaristia, esquecendo que é pela ação do Espírito que pão e vinho se tornam corpo e sangue do Senhor. É necessário olhar para o Espírito como o laço que une o Pai e o Filho.

Lançando um olhar para a nossa história atual, nos deparamos com o evento histórico e eclesial: o Concílio Vaticano II. A novidade deste concílio para a Igreja é a busca por um retorno à atitude da Igreja primitiva, fazendo com que o Espírito volte a ser a alma e o coração da Igreja nos dias atuais. O Vaticano II nos ensina que é o Espírito que derrama dons e carismas sobre todo o povo de Deus, povo ungido. E se faz importante mencionar a importância da unção, porque a partir disso se fala da vocação universal à santidade, observando que o Espírito Santo atua na história, aquilo que passou a ser denominado de “os sinais dos tempos”.

Olhando para uma realidade mais próxima, a América Latina, é necessário recordar Medellin e Puebla onde os bispos sensíveis à voz do povo e vendo sua realidade, reconheceram que através da vida do povo, o Espírito Santo gemia e pedia justiça. A partir disso, a Teologia da Libertação se faz como reflexão sobre esta realidade, marcada pelo povo que pede justiça, pão, moradia e trabalho. Através destes pedidos se reconhece a presença do Espírito. Estando o povo numa situação de dependência e de escravidão, o Espírito clama por sua libertação de tudo aquilo que oprime o ser humano, e que se configura como morte.

Atualmente se observa o crescimento dos movimentos pentecostais e de renovação carismática, que de certo modo respondem a duas situações: 1. a sede de Espírito e 2. a falta de Espírito que durante séculos está presente na Igreja Latina. Mas, é necessário destacar que movimentos assim não ocorrem na Igreja Oriental, porque, como vimos, sempre houve uma maior sensibilidade para com o Espírito Santo. Estes movimentos pentecostais dão calor e vida à dimensão do Espírito nas celebrações, dão importância à dimensão da experiência espiritual, sendo um redescobrir do calor, do entusiasmo do Espírito que se havia perdido. Mas, há um elemento que precisa ser considerado: o discernimento dos espíritos e dos sinais dos tempos se faz através do Espírito de Jesus. E preciso que haja um discernimento a partir da vida de Jesus de Nazaré.

Por fim, Codina afirma que em nossos dias há um redescobrimento da Pneumatologia latino-americana dentro da Teologia da Libertação. Existem autores latino-americanos que estão trabalhando e trabalharam muito a questão do Espírito, são teólogos e teólogas da libertação que são sensíveis para perceber um espírito que atua a partir de baixo, dos pobres, dos que não tem voz e que faz com que eles vivam com esperança, que lutem, que trabalhem pela justiça, que não desanimem, que mantenham suas relações de alegria também em meio às dificuldades. Este Espírito é o Espírito de Jesus, que leva a viver a vida de Jesus com mais intensidade.

 

Frei Artur Bruno Secundino Medeiros, OFM