,

COVID 19: REFLEXÃO QUARESMAL POR FREI ALOÍSIO FRAGOSO

Durante o período da Quaresma ouve-se muitas vezes a palavra PENITÊNCIA. Não se trata de uma idéia-monopólio da espiritualidade cristã. Não há nenhum tipo de realização humana, visando um objetivo superior, que não suponha e exija penitência, no sentido etimológico, no sentido original da palavra (do grego “metanoia”, ultrapassagem do modo atual de ser e agir.)
Uma das mais árduas penitências hoje em dia é o ato de contemplar a realidade. Contemplar não significa ver, olhar, enxergar, e sim desvendar, decifrar, mergulhar no mistério das coisas. Daí o grande número de pessoas tentando fugir para o irreal. E a esperteza do Sistema em criar espaços e instrumentos que favoreçam este relax.
A pandemia do coronavirus está nos obrigando a um relax compulsório.
A fim de contemplar esta realidade necessitamos de algum ponto de vista que nos dê clareza e segurança. A fé nos aponta o Calvário, a Cruz. No entanto, esta não se reduz à visão da dor, da morte; é antes a visão da dor e da morte transfiguradas pelo mistério. O maior deles: a possibilidade da dor ser purificadora, da morte ser redentora, da paz emergir das ruínas da guerra, da vida nova ser gerada de dentro do túmulo.
Ao contrário do que pode parecer, com a suspensão de todos os rituais religiosos tradicionais, podemos vivenciar a Quaresma com maior intensidade, inserindo-nos dentro deste mistério.
Aprendamos as lições da História. A peste negra, que irrompeu na Europa, no ano de 1348, e durou 5 anos e matou 25 milhões de pessoas, foi infinitamente mais devastadora do que a atual. Em muitos casos ela obrigou a mudar o sentimento humano de amor em ódio como arma de sobrevivência. Uma mãe não podia socorrer um filho infectado, pois não tinha como escapar do contágio e com isso destruiria o resto da família. Como enfrentar esta situação sem desesperar ? Com uma única saída: convertendo para o ódio o sentimento do amor (o ódio não é a negação do amor, mas o mesmo amor em estado de frustração, motivo de maiores sofrimentos).
A peste negra produziu profundas e radicais mudanças de ordem teológico-religiosas e filosófico-existenciais. Pareceram inúteis os recursos da Fé. E, sendo a vida tão frágil e indefesa, que outra finalidade a vida pode ter, senão a de aproveitar ao máximo o momento presente? Nunca mais o mundo foi o mesmo.
Sugestão para as meditações quaresmais: que mudanças podemos esperar da coronavirus na alma do mundo e dos indivíduos?

 

Frei Aloísio Fragoso, OFM