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O OLHAR HUMANO DO BOM SAMARITANO E O CARISMA FRANCISCANO

O OLHAR HUMANO DO BOM SAMARITANO E O CARISMA FRANCISCANO

Reflexão sobre a Campanha da Fraternidade 2020

O olhar de Cristo revelada na parábola do bom samaritano é um olhar admiravelmente humano “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34) frente a desumanização do olhar da indiferença “Por acaso desceu pelo mesmo caminho um sacerdote, viu-o e passou adiante.  Igualmente um levita, chegando àquele lugar, viu-o e passou também adiante.” (Lc. 10, 31-32) ao enxergar a vida que pede socorro, se omite, não sente compaixão, ao praticar a indiferença nos tornamos desumanos.

Quando falamos de São Francisco de Assis ao beijar o leproso como nos relata o biógrafo Tomás de Celano em 2Cel 9, 11“Quando o leproso lhe estendeu a mão como que para receber alguma coisa, ele colocou dinheiro com um beijo (…). Repleto, a partir daí, de admiração e de alegria, depois de poucos dias, trata de fazer obra semelhante. Dirige-se às habitações dos leprosos e, depois de ter dado o dinheiro a cada leproso, beija a mão e o rosto deles. Assim toma as coisas amargas como doces”.

Geralmente enfatizamos que o poverello de Assis enxerga no rosto do leproso o rosto do Cristo. Gostaria de questionar-nos, sobre nosso desejo de enxergar o rosto de Cristo no caído, será que é certo comungar o Cristo na Santa Missa e não converter nossa forma de olhar o irmão ou a vida que pede socorro? O Padre Raniero Cantalamessa,OFMcap escreveu em sua obra “O mistério da ceia”:

(…)aquilo que os sinais do pão e do vinho exprimem no plano visível – a unidade de grãozinhos de trigo e de cachinhos de uva – o sacramento realiza no plano interior e espiritual.

“Realiza”: não por si, automaticamente, mas com o nosso empenho. Eu não posso mais desinteressar-me do irmão ao aproximar-me da eucaristia; não posso rejeitá-lo sem rejeitar o próprio Cristo e separar-me da unidade. Quem, na comunhão, pretendesse ser todo de Cristo depois de ter ofendido e ferido o irmão sem pedir-lhe perdão, ou sem estar decidido a isso, assemelha-se a alguém que depois de muito tempo, encontrando um amigo, levanta-se nas pontas dos pés para beijá-lo na fronte e mostrar-lhe todo seu afeto; mas não se dá conta que lhe pisa nos pés com sapatos ferrados! Os pés de Cristo são os membros de seu corpo, especialmente os mais pobres e humilhados. Ele ama muito esses seus “pés”, e poderia gritar àquele tal: Estás vazio! A honra que me dás não diz nada! (CANTALAMESSA, 1993, p. 50)

 

Por isso se faz necessário converter nosso olhar de indiferença no olhar do Cristo que se revela na parábola do bom samaritano “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34), Para comungar com nossos irmãos e irmãs que mais necessitam.

 

SANTA DULCE DOS POBRES E A ESPIRITUALIDADE SAMARITANA

Santa Dulce dos pobres, essa grande franciscana que aprendeu muito bem com o Cristo essa espiritualidade samaritana como nos relata o Frei Mario Erky, OFMcap no vídeo oficial da Campanha da Fraternidade 2020, expressando as seguintes palavras “Irmã Dulce vive uma espiritualidade samaritana, não basta ver, não basta sentir a necessidade o sofrimento do irmão, é preciso acolher é preciso agir, é mente, coração e mãos (…) ela nos ensina que tocar o pobre, cuidar do pobre, alimentar o pobre, é alimentar o próprio Cristo.” É realmente inspiradora a vida de doação desta Santa que foi capaz de consumir sua vida para devolver a dignidade humana a muitos que não encontravam socorro e abrigo.

Podemos nos perguntar, qual a inspiração de Santa Dulce dos pobres para abraçar tamanha caridade? A resposta é simples ao enxergarmos quem foi essa serva do Senhor, a motivação foi o próprio Cristo que diz: “porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim’. Os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar?’. Responderá o Rei: ‘Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.’” (Mt. 25, 35-40)

 

SÃO FRANCISCO DE ASSIS E A ESPIRITUALIDADE SAMARITANA

A passagem da vida de São Francisco de Assis que nos revela a espiritualidade samaritana de forma muito explicita é exatamente a qual ele é conduzido pelo Senhor ao meio dos leprosos, estes que para ele era repugnante e muito amargo, porém o Senhor o inspira uma nova forma de enxergar esses irmãos. “parecia-me amargo ver leprosos. E o próprio Senhor me conduziu entre eles, e fiz misericórdia com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo se me converteu em doçura de alma e de corpo” (Test. 1-3)

O Olhar anterior de Francisco era de repugnância, de indiferença, era-lhe amargo ver um leproso, porém o Senhor transforma sua forma de olhar o leproso e conduz Francisco para o meio deles, aqui está a dinâmica do “VER” do bom samaritano, converter o olhar por causa do Cristo, então Francisco foi conduzido pelo Senhor para o meio deles, movido  pela compaixão em seu coração, como nos propõe a parábola “SENTIU COMPAIXÃO”, e finalmente fez misericórdia com eles, “ E CUIDOU DELE”. Esta experiência de Francisco, transforma oque antes era amargo, se torna doçura do corpo e da alma para ele.

UMA IGREJA INSPIRADA NO BOM SAMARITANO

No tempo em que vivemos uma globalização da indiferença, somos chamados a ser sinais proféticos, a vida que corre perigo está ao nosso redor clamando um olhar, clamando por compaixão e necessitando do cuidado zeloso que restaura e dá esperança ao que parecia estar perdido. É preciso compreender a vida como Dom de Deus, e assumirmos como igreja, em caridade fraterna, o compromisso de cuidar da Vida, de forma abrangente, a natureza que pede socorro, as florestas que sofrem com as queimadas, os povos indígenas perseguidos e desrespeitados em seus direitos, as diversas formas de violência atualmente, a vida nos rios e mares que estão ameaçadas, entre outras formas e realidades que clamam pelo que é mais sagrado “a vida Dom de Deus”.

Que possamos seguir os passos do bom samaritano “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34), busquemos nos humanizar, frente a desumanização da globalização da indiferença. Que nosso olhar seja o olhar de Cristo, inspirados pelo Evangelho “todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes.’” ( Mt 25, 40), Sejamos instrumentos de Deus no cuidado ao homem e a nossa casa comum, fazendo-se instrumentos da paz que vem de Deus.

Frei Mendelson Branco da Silva, OFM

 

REFERÊNCIAS

CANTALAMESSA, Raniero. O mistério da ceia. Aparecida, SP: Editora Santuário, 1993. 142 p.

CNBB. Campanha da Fraternidade 2020 – VÍDEO OFICIAL – CNBB. [S. l.]: CNBB, 12 nov. 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ALFdxGH5bx4&t=9s. Acesso em: 28 fev. 2020.