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LEIA O ARTIGO DO FREI MENDELSON BRANCO SOBRE “A ATITUDE CONTEMPLATIVA DE SABOREAR A VIDA”

“A atitude de saborear a vida…” essas palavras carregam em seu sentido a ação de experimentar, deliciar-se com a vida, os tempos atuais com os excessos de trabalho, compromissos e preocupações nos mergulham em um grande ativismo, que aos poucos sufoca o indivíduo e sua capacidade de sentir o sabor, sem que percebamos. A nossa atenção está voltada para múltiplas tarefas e compromissos ao mesmo tempo e esquece-se de cultivar a atitude contemplativa sobre a vida, ou seja fixar o olhar sobre a vida, não de qualquer forma mas com encantamento, com admiração, para encontrar nesta atitude a mística da contemplação da vida, ou seja, saborear a vida como ela é.

Para que esta contemplação aconteça é necessário desacelerar e olhar de forma mais profunda, como estou vivendo as experiencias de meu dia-a-dia? Onde está a presença e sinais de Deus em meu cotidiano? O escritor e poeta português José Tolentino Mendonça em sua obra “Libertar o tempo”, ao escrever sobre a vida ele diz:

Certamente nos está reservada a possibilidade de a tomar em cada um desses modos, só distantes e contraditórios na aparência. A mistura de verdade e sofrimento, de pura alegria e cansaço, de amor e solidão que no fundo misterioso a vida é, há de aparecer-nos em suas diversas faces. (MENDONÇA, 2017, p. 43)

É preciso tempo para comtemplar as faces da vida, e quanto mais exercita-se a atitude contemplativa sobre a mesma, é amadurecido o amor a vida como ela se apresenta, em suas mais diversas faces, ao desafiar-se nesta atitude de saborear firmamos uma aliança com o tempo presente, com o agora, sentir como estou neste momento  e abrir o espírito para acolher-me no presente, isso é tomar consciência de si, ao fazer isso posso enxergar como estou cuidando de três formas de relação em meu interior: a relação comigo mesmo, a relação com meu próximo, e minha relação com Deus.

O ativismo descontrolado no cotidiano me desloca do agora para uma preocupação exagerada com o futuro, horários de muitos compromissos, prazos  a cumprir, isso não quer dizer que não devemos nos preocupar com a dinâmica do cotidiano, é necessário trabalhar, estudar e cumprir com nossas obrigações, mas será que estou sendo escravo do tempo cronológico? Tenho separado um espaço do dia para saborear a vida? Ou para relacionar-se comigo mesmo, com Deus e com o meu próximo?

A sabedoria é a vida mesma: o real do viver, a existência não como trégua, mas como pacto, conhecido e aceite na sua fascinante e dolorosa totalidade. Não se trata apenas de viver o instante, tarefa inútil, pois a vida é duração. Aquilo que nos é dado dura, e nós dentro dele, com ele. Não é a flor do instante que nos perfuma, mas o presente eterno do que dura e passa, do que dura e não passa. (MENDONÇA, 2017, p. 45)

 

São Francisco de Assis e o saborear da vida

São Francisco de Assis buscava em seu cotidiano e em sua atitude de recolhimento saborear a vida como ela se apresentava, tanto ao contemplar a criação do altíssimo Senhor no “Cântico das Criaturas”, como no exercício da paciência e caridade de coração, na passagem da “Perfeita Alegria”. De forma muito simples Francisco ensina a saborear vida, como quando ao contemplar o leproso enxerga o rosto de Cristo:

“Foi assim que o Senhor concedeu a mim, Frei Francisco, começar a fazer penitência: como eu estivesse em pecado, parecia-me sobremaneira amargo ver leprosos. E o próprio Senhor me conduziu entre eles, e fiz misericórdia com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo se me converteu em doçura de alma e de corpo; e, depois, demorei só um pouco e saí do mundo” (Test 1-3).

Essa doçura de corpo e da alma é o sabor de permitir que o Senhor conduza nossos passos. Que possamos então enxergar a mão bondosa de Deus em nosso caminho e possamos contemplar este dom precioso de Deus para nós que é a vida com seus sabores por vezes amargo e por vezes doce, mas é aí que está a graça de Deus a nos conduzir.

Frei Mendelson Branco da Silva, OFM

 

Referencias:

MENDONÇA, José Tolentino. A arte de olhar para a vida. In: MENDONÇA, José Tolentino. Libertar o tempo: para uma arte espiritual do presente. 1. ed. São Paulo: Paulinas, 2017. cap. 8, p. 43-46. ISBN 978-85-356-4325-1.