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O ENTENDIMENTO TEOLÓGICO FRANCISCANO DA CRUZ

Francisco, após o encontro com o leproso e com a cruz de São Damião, tornou-se um homem inebriado de amor. Viver em sua vida a imitação do Cristo e seu itinerário até a Cruz era perceber que “a Cruz é um símbolo muito positivo quando consideramos a vida nova que brota. Sem a cruz não pode haver crescimento no amor ou maturidade, nem plenitude ou equilíbrio, nem vida e energia, nem relacionamento pessoal entre Deus e a humanidade”[1].

A cruz é vista por Francisco como uma identificação, até porque a vida da humanidade está ligada com a vida de Cristo que nos amou até o último instante. O próprio São Boaventura “está profundamente convencido de que na “cruz todas as coisas (ominia) são reveladas; ninguém tem acesso a Deus de forma direta (recte), se não por meio do Crucificado; e “Jesus Cristo revelou-se imitável em sua medida máxima na forma que teve na cruz”[2].

Bem sabemos o quanto foi importante para Francisco a experiência nas ruínas de São Damião, brotando daí um amor indivisível ao Cristo Crucificado. Agora, após dezenove anos de uma vida permeada na imitação do Cristo, ele recebe, no Monte Alverne, em seu corpo as marcas da paixão. “Foi aos pés do Crucificado da igrejinha de São Damião que iniciou sua carreira generosa e foi pela crucifixão mística das chagas impressas em seu corpo no alto do Alverne que chegou a culminância de sua vida na terra[3], sendo assim o amor incomensurável pela paixão, amor esse que vai se desenvolvendo até culminar com a impressão das Chagas no Monte Alverne.

A visão com que Francisco é mimoseado sobre o Alverne é tanto a da Cruz Glorificada como a de uma Glória Crucificada. O sublime serafim resplandecente de fogo, tanto representa o Ressuscitado, o Transfigurado de amor, como o Santo de Israel tocando as montanhas com seu esplendor. A Glória que surge diante de Francisco sob a aparência do Serafim é bem a Glória do Senhor para além da sua morte gloriosa, é a Glória Pascal, aquela que pelo amor triunfou sobre a morte, aquela que, no silêncio do Calvário[4]

A experiência alcançada no Monte Alverne é, sem dúvidas, “o cume de uma ascensão mística em que Francisco buscou durante toda sua vida, o Cristo não só na sua figura de homem, mas também na sua figura de homem aniquilado, despojado de todo poder”[5], expressão máxima de amor. Ao receber em seu corpo as marcas da paixão, torna-se um “alter christus” (outro Cristo), pois “a contemplação de Francisco estigmatizado, considerado “outro Cristo crucificado”, foi o ambiente vital em que floresceu uma profunda e original espiritualidade e uma notável teologia da cruz e do Crucificado”[6]. A cruz, portanto, é o despojamento do amor de Deus em favor dos homens, onde Deus mesmo se encarna (presépio), ensina (discípulos), ouve o Pai e se entrega totalmente na cruz (estigmas).

As chagas formam a confirmação e a fidelidade ao projeto que o Senhor lhe deu. “Boaventura está convencido de que o arrebatamento de Francisco no Alverne não está desligado da caminhada que Francisco fez até aí. No Alverne ela se torna modelo de contemplação, como antes se tonara modelo de ação”[7]. Essa é a expressão máxima do amor incondicional do amante para com o amado, é a vivência concreta do amor-doação expressa em marcas em Jesus e em Francisco, os quais amaram a todos até o fim.

Receber os estigmas é deixar-se viver inteiramente permeado pela força amorosa de Cristo que se doa, percebendo em sua volta e assumindo em seu corpo a imagem de todos os desprezados de seu tempo. Deste modo, “Francisco tinha dado sua alma de tal forma que nem mesmo seu corpo conserva mais. Quando lhe pedem uma explicação, nada tem a nos dizer. Ele é propriedade de alguém que não explica, mas plenifica”[8]. É no Cristo Crucificado, em seu corpo, que o Pobre de Assis vivencia toda dor-alegria, uma profunda harmonia de amor de Deus-Filho que padeceu na Cruz por amor a todos.

Portanto, “a vida de São Francisco foi uma celebração de liberdade no esforço vitorioso de libertar-se de tudo quanto embaraçava o seu ideal. A luta desapiedada contra si mesmo para vencer os seus impulsos”[9], fez com que ele chegasse na sua vida contemplativa e espiritual ao ápice do “imitar a Cristo” pobre e crucificado, gravando em seu corpo as marcas da paixão. “É uma transformação interior e exterior que faz de Francisco, à imagem da vida do Crucificado, à semelhança daquilo que se dá em Jacó, quando ao contato profundo com Deus, em sua luta interior de transformação de si mesmo, se torna Israel”[10].  Isso porque “a crucifixão de Jesus foi a expressão suprema do amor de Deus por nós. Nossa expressão de amor por Deus e pelos outros inclui uma crucifixão semelhante”[11], porque quem mergulha na paixão do Cristo, sente arder o coração e vive profundamente assim como o Pobre de Assis, no amor.

 

Frei Allanderson Brito, ofm

 

 

 

 


[1] PEDROSO, José Carlos Corrêa. Olhos do espirito: itinerário de formação na contemplação na escola de Francisco de Assis. p. 113.

[2] IAMMARRONE, Giovanni. Cristologia. In:MERINO, José Antônio; FRESNEDA, Manual de Teologia Franciscana. p. 180-181.

[3] KOSER, Constantino. O pensamento franciscano. p. 37.

[4] MOTTE, P. Ignace-Étienne; HÉGO, P. Gérald. A Páscoa de São Francisco. p. 99-110.

[5] RITO, Honório (OFM).  Teologia Franciscana. “Revista da Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil”, 1988, nº108, p. 87.

[6] IAMMARRONE, Giovanni. Cristologia. In: MERINO, José Antônio; FRESNEDA, Manual de Teologia Franciscana. p. 202.

[7] RITO, Honório (OFM). Teologia Franciscana. “Revista da Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil” p. 87.

[8] LECLERC, Éloi. Francisco de Assis. O retorno ao Evangelho. p. 108.

[9] ZAVALLONI, Roberto. Pedagogia Franciscana: Desenvolvimento e perspectiva. Op. cit., p. 149.

[10] RITO, Honório (OFM). Teologia Franciscana. “Revista da Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil”.  p. 87.

[11] PEDROSO, José Carlos Corrêa. Olhos do espirito: itinerário de formação na contemplação na escola de Francisco de Assis. p.113.