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LITURGIA DOMINICAL – FAZER UMA ESCOLHA

Queridas Irmãs, queridos Irmãos!

Lendo ou escutando com atenção as leituras de hoje, particularmente a leitura do Livro de Josué e o Evangelho de João, podemos descobrir nelas um desafio comum lançado por Josué e por Jesus: fazer uma escolha.

No livro de Josué, o povo depois 40 anos de passagem pelo deserto e passando por muitas dificuldades durante essa caminhada, alcança a Terra Prometida. Moisés que fez a Aliança com Deus morreu. Josué, o novo líder, exige uma confirmação desta Aliança através da exortação: “escolhei hoje a quem quereis servir: aos deuses a quem vossos pais serviram na Mesopotâmia ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais.” (v. 15). Por que Josué exige novamente a confirmação da Aliança pelo povo? A terra em que o povo entrou era uma terra fértil, água e colheitas em abundância, rebanhos sadios e grandes. Diante da experiência da escassez e de dificuldades durante caminhada pelo deserto, essa nova realidade se tornou uma tentação para aderir ao deus Baal que foi o deus venerado nesta terra. Surgem questionamentos e dúvidas: será que o Deus da Aliança tenha força contra esse deus? Mas o povo confirma:o Senhor, nosso Deus, ele mesmo é quem nos tirou, a nós e a nossos pais, da terra do Egito, da casa da escravidão. Foi ele quem realizou esses grandes prodígios diante dos nossos olhos e nos guardou por todos os caminhos…” (v. 17). Diante dessa experiência vivida, o povo optou livremente pelo Senhor: “nós também serviremos ao Senhor, porque ele é o nosso Deus” (v. 18).

Olhamos a Jesus no Evangelho. O trecho que escutamos hoje termina o longo discurso de Jesus no capítulo 6 sobre si mesmo. O capítulo começa com a multiplicação dos pães. Logo o povo queria fazê-lo rei. Jesus percebe esse desejo e se retira sozinho ao monte. O monte é o lugar do encontro mais profundo com o Pai. É o lugar onde se iniciou após da tentação no deserto (transformar pedras em pão) (Mt 4,3) a Nova Aliança cujo fundamento são as bem-aventuranças (Mt 5).

O povo quer um sinal para crer em Jesus e seus ensinamentos. Ele lhes responde que devem crer naquele que o Pai lhe enviou, isto é Nele. Mas a insistência em receber um sinal concreto continua e Jesus finalmente diz: “Eu sou o pão da vida: aquele que vem a mim não sofrerá fome, aquele que crê em mim não passará sede.” (v. 35; cf. 4,15) ou “Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá sempre. O pão que eu dou para vida do mundo é a minha carne.” (v. 51). Isso provoca nos ouvintes o comentário que introduz o Evangelho de hoje: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?” Chegou o momento em que muitos discípulos e discípulas que seguiram a Jesus o abandonam. É certamente o momento mais doloroso na vida de Jesus percebendo que muitos não o entendem e o abandonam. Por isso, ele mesmo exige dos doze também uma nova decisão: “Também vós quereis ir embora?” (v. 67). Neste momento Pedro responde: “Senhor, a quem iremos? Tu dizes palavras de vida eterna … tu es o Consagrado de Deus.” (v. 68-69). Pedro falou por toda a Igreja.

Por isso Paulo convida os seus ouvintes na Carta aos Efésios com estas palavras: “vós que temeis a Cristo, sede solícitos uns para com os outros.” (v. 21). Professar a fé em Jesus Cristo significa se preocupar com o bem-estar do irmão e da irmã ao nosso lado e mais ainda com todos e todas que vivem na nossa comunidade e/ou sociedade, particularmente com os mais necessitados. Paulo escolhe o relacionamento familiar para falar também do relacionamento da Igreja com Cristo. Sem dúvida o texto soa estranho em nossos ouvidos hoje. Devemos considerar que Paulo fala numa época em que a mulher ainda não teve direitos próprios; era uma posse do marido. Essa realidade cultural se reflete também na vivência religiosa. Por isso esse texto não pode ser usado para justificar a submissão da mulher ao marido. Hoje temos outra compreensão do relacionamento entre esposo e esposa. São companheiros de uma única caminhada, partilhando a vida, educando juntos os filhos e ambos assumindo as demais responsabilidades da família. Antes de tudo deve prevalecer o pensamento do próprio Paulo: “Assim é que o marido deve amar a sua mulher, como ao seu próprio corpo. Aquele que ama a sua mulher ama-se a sim mesmo.” (v. 28). Vale também como fundamento para interpretar o texto de Paulo a compreensão que Jesus tem de si mesmo:Quem quiser ser grande entre vós, que se torne vosso servidor, e quem quiser ser o primeiro, se torne o vosso escravo. Da mesma forma que este Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida como resgate por todos.” (Mt 20,26-28) . A imagem mais bonita que expressa o relacionamento familiar, é aquela em que Jesus lava os pés dos discípulos. (cf. Mt 13,14).

Pedimos nesta celebração que cada um de nós sempre seja iluminado pelo Espírito Santo nas suas escolhas na vida e que nossas famílias sejam lares de respeito e de amor mútuo. Amem.

 

 

                                                                                                                                                          Frei Walter Schreiber,  OFM                                                                                                                                                          Guardião da Fraternidade Nossa Senhora dos Anjos, Penedo – AL