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HÁ UM NOVO ÊXODO SENDO ESCRITO

A realidade migratória e imigratória está presente desde o início dos tempos nos primeiros grupos humanos, acontecendo por diversas circunstancias. Algumas vezes devido a mudanças climáticas a nível muito insuportáveis e outras por necessidades de melhor lugar para cultivo de seus alimentos e melhores chances de boas caças e pescas. Mas desde os tempos bíblicos, com o exílio da Babilônia e posteriormente a saída do povo de Israel, configura mais uma nova circunstância: interesses político-econômico.

É inevitável não sentirmos o triste caso de nossos irmãos que são obrigados, ainda hoje, a sair de sua pátria, deixando muitas vezes a sua família para trás. Os motivos tendem a ser o mesmo: a esperança de dias melhores. Dias esses que poderia ser em sua terra mãe, mas que, devido a ganancia de quem já de tudo pode ter, ficou fadado a se tornar uma utopia.

Até quando nós cristãos vamos ficar de braços cruzados, olhos fechados, coração endurecido e não ir para a missão que Moisés um dia foi chamado e Jesus Cristo reforçou ao doar seu sangue para que nunca sejamos escravos de ninguém e nem tampouco do pecado? Missão de libertar os cativos (Cf. Isaias 61:1), libertá-los de sua ideia de que não á saídas melhores para sua situação, saídas melhores do que se render a opressão de alguém que deveria partilhar que de muito tem nas mãos.

O profetismo que o cristão é convocado vem justamente para denunciar situações de opressão, da ausência dos direitos humanos que deveria ser uma prática natural do homem. São Tomás de Aquino retrata bem o quanto o homem sempre foi falho em exercer sua obrigação natural: ser justo consigo e com o próximo.

Ainda Tomás de Aquino conseguimos entender bem a necessidade que levou a criação das leis que tem como função salvaguardar a justiça entre os povos, pois, “a justiça é o hábito segundo qual alguém, com constante e perpétua vontade, dá a cada qual seu direito”. Sendo assim, temos a seguinte exposição dos tipos de leis, em Tomás de Aquino, que nos revelam quanto o homem necessita sempre de relembrar de ser justo:

  • Lei Divina Eterna: sendo o plano racional de Deus que estabelece a ordem no Universo, e que existe na mente de Deus que dirige todas as criaturas para a finalidade de sua criação.
  • Lei Natural: que é a centelha da Lei Eterna que Deus coloca nos corações dos Homens. É visivelmente isso quando em nossa mente surgem coisas como: é proibido matar, roubar, que devemos fazer o bem…etc.
  • Lei Humana: deriva da Lei Natural, que surge para desviar os Homens do caminho das práticas do mal devido ao mau uso do nosso livre arbítrio.

O interessante que percebamos é que a Lei Humana e a Lei Natural não podem nunca entrarem em contradição, pois assim deixariam de ser leis, seriam somente palavras jogadas. Contudo, acima da lei Humana está a Lei Divina, esta Lei Divina Positiva que tem por função corrigir as imperfeições da Lei Humana e também a leitura errada da Lei Natural. Um exemplo claro desta Lei Divina Positiva são as Tábuas da Lei que Moisés recebe do próprio Deus e outro exemplo é a Nova Aliança construída pela vinda de Cristo.

Como vemos, o ser humano é sempre recobrado a lembrar de viver na pureza de seu coração, não amedrontados pelas leis que punem, mas revestidos dos sentimentos de Cristo, que nos convoca a sermos novos Moisés nesta sociedade que ainda teima em escravizar, teima em tirar vantagens dos irmãos que quase sem esperança estão. E somos ainda chamados a recobrarmos as lembranças de que somos estrangeiros neste mundo, como também relembrar o senso de partilha das nossas primeiras comunidades e que tanto nos identificava.

Enfim, é mais um capítulo do Êxodo do povo de Israel, do povo de Deus quem vem sendo escrito sobre o sangue, escravidão e naufrágios de nossos irmãos. Êxodo dos nossos novos israelitas: mexicanos, venezuelanos, haitianos, sírios. Êxodo e escravidão que necessita de profetas da libertação, não daqueles que vivem em ideologias e que acabam colocando mais perigo e dificuldades na vida de quem já está sofrendo. Mas, homens que estão dispostos a mostrar luzes onde se vê trevas, homens que incentivam o crescimento de quem se acha mísero e que só há vida melhor se sujeitando a um sistema que oprime, mas que ela pode ser também profeta da sua própria libertação, de buscar em Deus a força e somar com a sua vontade de mudar de vida sem se colocar abaixo de outro.

 

Frei Willames Batista do Nascimento, OFM
Fraternidade Santo Antônio – Canindé
Licenciado em Filosofia  pela Faculdade São Bento da Bahia
Administrador do Canal “A Arte de Ser Willames” no Youtube.

 

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Referência:

GAUTÉRIO, Maria de Fátima Prado. O conceito de lei segundo Santo Tomás de Aquino. Disponível em: http://www.ambitojuridico.com.br/site/index.php?n_ link=revista _ artigos _ leitura&artigo_id=6279. Acessado em 17/08 às 14:32