,

ASSUNÇÃO: UMA DENÚNCIA AOS CORPOS SOFRIDOS À LUZ DO “AMOR PREFERENCIAL PELOS POBRES”

Se Assunção de Maria restaura e reintegre a corporeidade feminina no mistério de Deus, e se Maria é o ícone do gênero humano, e manifesta a caraterística da dignidade humana, logo, a Glorificada é ícone da esperança na luta em favor do cuidado da vida, “Maria prolonga, em sua assunção gloriosa, a tarefa da luta contra as estruturas de pecado que levara a cabo durante sua vida mortal” (TEMPORELLI, 2011, p. 226).

Sob as primícias do poder pascal de Cristo, Assunção, é a “festa do corpo”. Do corpo resgatado e vingado, na pessoa de Maria, e denunciado, sobretudo, nos sofrimentos daqueles que vivem no anonimato e na humilhação. Na inferioridade e na indigência. “Uma expressão eloquente da justiça escatológica de Deus, o goel de todos os degolados e massacrados da história.” (CLODOVIS, 2006, p. 537)

Como sublinha o Papa Pio XII, a proclamação deve persuadir a todos do valor da vida humana. Já do Concílio Vaticano II, aprendemos que a Igreja deve estar atenta no cuidado de restaurar a sociedade humana e cuidar da pessoa que é “unidade e integridade: corpo e alma, coração e consciência, inteligência e vontade” (GS 3). E a partir deste Magistério, e, sobretudo, do Documento de Puebla que podemos afirmar a significação “antropológica-social” do dogma (Cf. PUEBLA 38). Os bispos, reunidos no México de maneira profética, denunciaram à luz da Assunção a profanação do homem Latino Americano e Caribenho. Nesta última parte, em consonância com o Deposito da Fé, denunciamos que os corpos de homens e mulheres foram coisificados pela selvageria de um sistema que trata tudo como descartável, imprimindo na sociedade hodierna uma desvalorização do corpo humano, que é por vezes tornado mercadoria e razão de tanta exclusão.

Assim sendo, é possível elencar uma lista de profanações ao corpo humano neste tempo de mudança de época.

O corpo da mulher, degradado pela prostituição, pelo abuso sexual, violência doméstica, maus-tratos e profanado pela cultura machista.

O corpo do homem, “coisificado” pela cultura midiática da busca pelo corpo perfeito.

O corpo da vida humana inocente (Cf. EV 57), abortada, privado por uma pseudo-justificativa egoísta.

O corpo da criança, vítimas da pedofilia, trabalho escravo, fome, desnutrição, prostituição infantil e abandono social.

O corpo do jovem, traficado pelo comércio de órgãos, escravo da droga, álcool e violência.

O corpo da pessoa idosa, maltratada, abandonada por familiares, enganadas por empréstimos ilícitos.

O corpo do trabalhador, espoliado pela injustiça econômica, cobrança excessiva de resultados, retirado dos seus direitos até da previdência social.

O corpo do imigrante, profanado pela falta de acolhida, preconceito étnico e alvo do genocídio.

O corpo do prisioneiro de guerra, torturado, sequestrado, alvo de ameaças.

O corpo do morador de rua visto como lixo humano.

O corpo do enfermo, carente de recursos para o tratamento e remédios adequados, estigmatizado por doenças incuráveis e contagiosas.

O corpo do crente, vítima da falta de diálogo inter-religioso.

O corpo do índio, arrancado de sua terra, desvalorizados na sua cultura.

O corpo do negro, alvo do racismo e da discriminação.

O corpo do homossexual, exterminado, ridicularizado, mal compreendido e excluído.

O corpo tornado consumidor, escravo dos ditames da moda e do envenenamento químico.

Sem dúvida, a Assunção é a culminação gloriosa da preferência de Deus pelos pobres, pequenos e desamparados. Por outro lado, é um pedido a valorização do corpo, seja na promoção de todas as formas possíveis que estimulem uma correta relação com o corpo. Primeiro, uma atitude de reverência, “no sentido de tratá-lo com dignidade, sem tomar pretexto disso para satisfazer-lhe os caprichos” (CLODOVIS, 2006, p. 531). O corpo é templo vivo do Espírito e nele podemos glorificar a Deus, por outra parte, protege e preserva o mistério pessoal. Segundo, o cuidado com a saúde, de meios plausíveis que corroborem para o bem-estar da pessoa humana, sobretudo, dos empobrecidos. Terceiro, resgatar o valor da pureza, respeito pela sexualidade humana, que um bem, um “dom de si” que exprime por intermédio do corpo; a falta de respeito pelo próprio corpo e de outrem resulta naquilo que adverte o Papa Francisco: “o corpo do outro é manipulado com uma coisa que se conserva enquanto satisfação e se despreza quando perde o atrativo.” (AL 153)

Assim, depois de percorrer todo esse caminho, espera-se que a fé na assunção corpórea de Maria ao céu torne a vida do cristão mais firme e cheia de vigor na esperança na nossa ressureição e no compromisso de vigiar pelo respeito e dignidade dos direitos de todos, e de maneira, evangélica, por aqueles que são mais pobres e vulneráveis.

 

Trecho da monografia de Frei Dennys Santana, OFM

 TEMA: “Ensaio sobre a valorização e dignidade do

corpo humano à luz do dogma da Assunção”

 

Referências:

ALVES, Rubem. Variações sobre a vida e a morte. São Paulo: Paulinas, 1989.

ANCILLI, Ermanno. Dicionário de Espiritualidade. Vol I. São Paulo: Loyola, Paulinas, 2012.

ARENAS, Octavio Ruiz. Jesus, epifania do amor do Pai. São Paulo: Loyola, 2001.

BACCARANI, Alfonso M. Maria caminha conosco: reflexões sobre o Evangelho de Maria. São Paulo: Paulinas, 1994.

CANTALAMESSA, Raniero. Maria, um espelho para a Igreja. Aparecida-SP: Santuário, 1992.

BETTO, Frei. Crise da Modernidade e espiritualidade. In: Nascimento, Elimar (Org.). Ética. Rio de Janeiro: Garamond, 1977.

BOFF, Clodovis M. Mariologia Social: o significado da Virgem para a sociedade. São Paulo: Paulus, 2006.

BOFF. Leonardo. A nossa ressureição na morte. 11ª Ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2012.

______________. O rosto materno de Deus. 11ª Ed. Petrópolis-RJ: Vozes, 2012.

BÍBLIA de Jerusalém. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.

BINGEMER, Maria Clara. Maria, Mãe de Deus e Mãe dos pobres: ensaio a partir da mulher e da América Latina. Petrópolis-RJ: Vozes, 1987.

BRUNO, Forte. Maria, a mulher ícone do mistério. São Paulo: Paulinas, 1991.

CONGREGAÇÃO PARA DOUTRINA DA FÉ. Instrução sobre a liberdade cristã e a libertação. Disponível em: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_com_cfaith_doc_19860322_freedom-liberation_po.html. Acessado em: 20 de nov de 2017.

CONGREGAÇÃO PARA DOUTRINA DA FÉ. Instrução sobre o respeito à vida humana nascente e a dignidade da procriação. Disponível em: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19870222_respect-for-human-life_po.html. Acessado em: 20 de nov de 2017.

DEL GAUDIO, Daniela. Maria de Nazaré: breve tratado de mariologia. São Paulo: Paulus, 2016.

DENZINGER, Heinrich. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Paulinas: Edições Loyola, 2007.

DOCUMENTO DE PUEBLA. Conclusões da III Conferência do Episcopado Latino-Americano. São Paulo: Paulinas, 1979.

FIORES, Stefano de. Dicionário de Mariologia. São Paulo: Paulus, 1995.

FRAGOSO, Hugo (Frei) OFM. Igreja e Convento de São Francisco Bahia. Rio de Janeiro: Versal, 2009.

FRANCISCO, Papa. Exortação Apóstolica Evangelii Gaudium: a alegria do Evangelho: sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulinas, 2013.

______________. Exortação Apóstolica Pós-sinodal Amoris Laetitia: sobre o amor na família. São Paulo: Paulinas: 2016.

______________. Misericordiae Vultus: O Rosto da Misericórdia. Bula de proclamação do Jubileu extraordinário da Misericórdia. São Paulo: Paulinas, 2015.

JÚNIOR, João Luiz. Corpo – Uma abordagem bíblico-teológico. Revista de Teologia & Cultura, São Paulo, Ano VI, n. 27, Jan-Fev 2010. Disponível: http://ciberteologia.paulinas.org.br/ciberteologia/wp-content/uploads/2009/12/03-Corpo-uma-abordagem.pdf. Acessado em: 12 de out de 2017.

JUNG, C. G. Resposta a Jó. Petropólis-RJ: Vozes, 2011.

PAULO VI. Exortação apostólica sobre o culto à bem-aventurada Virgem Maria. São Paulo: Paulinas, 1974.

GAUDIUM ET SPES. Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II Sobre a Igreja no Mundo de hoje. São Paulo: Paulinas, 2007.

GEMELLI, Agostinho (Frei) OFM. O franciscanismo. Petrópolis-RJ: Vozes, 1944.

JOÃO PAULO II. Carta encíclica Redemptoris Mater. São Paulo: Paulinas, 2010.

_______________. Carta encíclica Evangelium Vitae. São Paulo: Paulinas, 2011.

_______________. Carta Encíclica Veritatis Splendor. São Paulo: Paulinas. 2011.

_______________. Teologia do Corpo: o amor humano no plano divino. São Paulo: Ecclesiae, 2014.

LIBANIO, J. B. Introdução à Teologia. São Paulo: Loyola, 1996.

Lumen Gentium. Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II sobre a Igreja. São Paulo: Paulinas, 2011.

NOVAES, Adauto. A ciência no corpo. In: Novaes, A. (Org.). O homem máquina. A ciência manipula o corpo. São Paulo: Cia. Das Letras, 2003.

ROCHCHINI, G. Instruções Marianas – Coleção Pastoral. São Paulo: Paulinas, 1960.

RUBIO, Alfonso García. Unidade na pluralidade: o ser humano à luz da fé e da reflexão cristãs. São Paulo: Paulinas, 1989.

SILVA, Paulo Cesar. A Ética personalista de Karol Woityla. Aparecida: Santuário, 2006.

SOCIEDADE DE TEOLOGIA E CIÊNCIAS DA RELIGIÃO – SOTER. Corporeidade e Teologia. São Paulo: Paulinas, 2005.

TEMPORELLI, Clara. Maria, mulher de Deus e dos pobres. São Paulo: Paulus, 2010.