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SANTO ANTÔNIO E A ESPERANÇA

Vivemos no Brasil um tempo de imensa desesperança. O futuro parece turvo e os problemas sem saída. Essa crise de esperança atinge a imensa maioria dos brasileiros, uma vez que esta maioria é composta por uma gente humilde, empobrecida e excluída, enquanto que poucos enriquecem às custas da sua dor.

Mas, o que isto tem a ver com Santo Antônio? O que essa reflexão tem em comum com o santo franciscano de Pádua? Vejamos: Antônio certa vez viajou para terras sarracenas a fim de ser martirizado. Só que ficou doente e teve que retornar à Itália. Antônio então percebeu que Deus queria dele um outro tipo de martírio, Deus o convidara a estar entre a gente sofrida do seu tempo, sofrer suas dores, combater seus combates, manter a fé. Em sua época a pobreza atormentava também a maioria. A agiotagem enriquecia a poucos, às custas de muito sofrimento dos menos favorecidos. Qual seria a missão de Antônio em meio a essa gente? Ele percebeu que o maior sofrimento de um povo não é a fome feroz, a falta de teto ou de dinheiro: ele sofria tudo isso voluntariamente, sabia o que era a dor e a injustiça. Antônio encontrou um outro tipo de riqueza, uma riqueza que homem nenhum poderia tirar-lhe, ou seja, ESPERANÇA. Essa era a missão que recebera, devolver ao povo empobrecido a esperança. Ele fazia isso testemunhando a fé por meio de sua vida. Sabemos que ficou famoso pela grande eloquência e inteligência, todavia, sem a autoridade de uma vida coerente suas palavras seriam vazias. Portanto, podemos concluir que a esperança cristã está diretamente ligada à coerência de uma vida verdadeiramente cristã.

Vergonhosamente, a maioria absoluta da classe dirigente do nosso país se diz cristã, é comum vê-los indo à missas e cultos protestantes. E por que não são geradores de esperança? Porque suas vidas são incoerentes com a vida do Deus que confessam com os lábios. Se dizemos que amamos a Deus não tem outro caminho que não o de amar como ele ama. E como Deus nos mostrou seu amor? Por meio do Filho, Jesus de Nazaré – Deus conosco, Deus com o cheiro das ovelhas porque comia com prostitutas e pecadores, leprosos e ladrões. Jesus andava entre os excluídos, sofria suas dores. Devolveu-lhes a esperança num Deus que os amava do jeito que eram. A vida de Jesus de Nazaré escandalizava aqueles que o chamavam de beberão e queriam sua morte.

Eis a missão: Antônio vai e faz o mesmo.

Nós, devotos de Santo Antônio de Pádua, caímos muito facilmente no erro do devocionismo. Como se dá isso? O que é isso, devocionismo? Somos devocionistas todas as vezes em que destacamos da vida do santo, somente aquilo que nos mantém inertes diante do sofrimento que nos cerca. Exaltamos os muitos milagres presentes na história do santo de Pádua, porque dá conforto e segurança para a alma. Esquecemos as dores que lhe cortavam o coração. Esquecemos o quanto ele se envolveu concretamente com os sofredores. A devoção por Santo Antônio deve nos conduzir ao caminho da humanização, e nesse caminho a dor do outro nunca nos passará desapercebida.

Dizemos com convicção: Jesus é onipotente, Deus é onisciente, onipresente, Jesus é Deus!!! E dizemos tudo isso com verdade, o problema é que esquecemos, ou não queremos ver, que a onipotência, onisciência e onipresença de Deus foram expressas na impotência da cruz. Antônio percebeu isso, escolheu viver como o seu Deus e foi coerente durante toda a vida. Seu testemunho era luz de esperança num mundo de densas trevas.

Que o exemplo de Antônio nos inspire honestidade. Honestidade ao nos perguntarmos: O que temos levado àqueles que estão próximos de nós? Participamos da trezena de Santo Antônio por devoção ou devocionismo? A paz que pregamos, o amor do qual falamos, estão presentes em nossas casas? Ou somos agentes de violência na família?

João, o apóstolo, chegou à seguinte conclusão: não podemos amar a Deus que não vemos se não amamos nosso irmão que vemos. O Evangelho dos apóstolos era escândalo para os judeus, assim como a verdadeira devoção a Santo Antônio deve nos escandalizar muito mais que confortar.

A esperança de Santo Antônio vinha da experiência que ele fez do amor de Deus junto aos empobrecidos, amor cujo símbolo máximo foi suspenso no madeiro da cruz.

Que Deus nos ajude. Paz e bem!

 

Por Frei Jean Santos, OFM

 

 

Frei Jean Santos, OFM reside no Convento Nossa Senhora das Dores em Fortaleza – CE e está cursando o segundo semestre em Teologia pela Faculdade Católica de Fortaleza.