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TODO DIA É DIA DE ÍNDIO!

Hoje é dia do índio e é provável que ainda o imaginemos tal qual nos ensinaram os livros da educação básica ou como nos apresentam a televisão.
As crianças nas escolinhas muito provavelmente voltarão para suas casas com um penacho feito de papel, com duas listas coloridas no rosto e com a ideia que os índios estão apenas nas matas.
Pode não ser vão o esforço de tornar a indianidade, mesmo sendo somente num dia – 19 de abril -, uma memória importante. Mas talvez seja preciso ressignificar o fato, a data e as “comemorações”.
É no mínimo estranho ter que celebrar o dia do índio e não despertar para a consciência que em nossas veias transitam sangue indígena, que a nossa história é marcada por uma agressão à liberdade identitária, a começar pela longa trajetória da demarcação das terras que tem custado etnocídios, intolerância cultural e religiosa e tantas outras formas de violência.
O que celebrar no dia do índio? podemos nos perguntar. Parece contraditório celebrar sua vida e sua memória porque são marcadas por diversas dores (aqui não se absolutiza o fato). É estranho ter que celebrar liberdade indígena porque eles ainda são vítimas da indiferença, da exclusão social, etc. O que então celebrar no dia do índio?As razões de celebrações são normalmente fruto de conquistas, de uma memória de superação de estados de desgraças. Mas os índios ainda sofrem os flagelos em dias atuais: lutam pela terra (que é de todos), mas que é vendida a custa de projetos que alimentam o poder do capitalismo; lutam pela liberdade de ser, mas são excluídos pela sua identidade; lutam pela forma autêntica de celebrar, mas são reprimidos porque são mal interpretados em suas expressões.
Dia do índio é dia de luta pela conquista do espaço de ser livremente indígena na sociedade, na floresta, no universo.
Não deve ser uma memória fixa no calendário civil, afinal, quem almeja a liberdade tem urgência de sair do cárcere da exclusão social e da invisibilidade das políticas necessárias à vida.
Dia do índio é todo dia. Abracemos essa causa.

 

Frei Faustino dos Santos, OFM
Uma ligeira reflexão