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NO DIA EM QUE O CEARÁ RECORDA A LIBERTAÇÃO DOS ESCRAVOS, JPIC PROVINCIAL DENUNCIA A VIOLÊNCIA NA CAPITAL CEARENSE

“A pior violência é a pobreza”.[1]

Meu Deus, ajuda-me! É cruel demais. O que podemos fazer uns com os outros, é muito cruel… A única forma de interromper o circuito da violência é pelo “jejum do perdão” (misericórdia eu quero e não os sacrifícios), como ato concreto pela paz, uma vez que não são as palavras que curam, mas a presença: convivência carinhosa e terna. Se elas, as palavras, nascem dessa terra então também curam.

A linguagem não está presa aos sinais gráficos, pois um olhar é linguagem que cura e fere muito mais que mil palavras grafadas. A linguagem transcende a grafia, por isso escrevo minha história com sangue e entranhas. O sangue de todos aqueles jovens assassinados na Praça da Gentilândia, em Fortaleza, grita da terra reivindicando justiça e sou sangue demais para ignorá-lo. A dor das pessoas que sofrem com a falta de água – enquanto que ao lado de suas casas passa um duto que transporta água para um polo industrial – corta nossa carne com o chicote da indignação, e sou entranha demais para não sentir a sede do Complexo do Pici, Fortaleza – CE.

Só existe uma atenção verdadeira, é aquela que recebemos quando ouvem de nós aquilo que lhes vai na alma, quando ouvem o que trazem consigo de mais ardente: medos, esperanças e dores desesperadas.

Em última instância é a morte quem nos iguala. O viver nos distancia e a distância nos iguala: a distância que mantemos de nós mesmos. Ao ignorarmos a dor do outro nós evitamos, na verdade, ver quem somos. Em não nos envolvermos com a dor do outro não queremos também sofrer injustiças, nem abrir feridas mal curadas. Se “a pior violência é a pobreza” (nudez e fome; indignidade e esquecimento), então, a violência também nos iguala, porque todos nós – ricos e empobrecidos – tememos sentir o peso da indiferença. Talvez na mente de tantos escravocratas, do passado e do presente, seja melhor receber um olhar de ódio ou medo do que ser alvo da indiferença; até os tiranos querem atenção, mesmo que seja de uma forma desumana e deturpada. Tememos o olhar de desprezo. Tememos uma vida oca “cheia de medo e dor”.

Mas quando dos olhos de alguém recebemos o afeto e a amabilidade que necessitamos, infiltra em nossa alma a esperança. Esperança é, portanto, a convicção de que há em nós tudo o que precisamos, mesmo que não saibamos ainda o que precisamos, mesmo que a amabilidade daquele olhar que nos percebe seja para nós como uma terra nova, um admirável mundo novo que nos faz acreditar em nós mesmos: isto é perdão.

Em homenagem à Mahatma Gandhi e à Marielle Franco, cujas vidas são suas mensagens.

Frei Jean Santos da Silva, OFM.

[1] Mahatma Gandhi.