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HOMILIA DE ENCERRAMENTO DO ENCONTRO DA CFMB E CONE SUL COM O MINISTRO GERAL E SEU DENIFITÓRIO

Meus queridos Irmãos, o Senhor lhes dê paz!

E logo, ao sair da água, viu o céu se abrindo, e o Espírito, como pomba, descer sobre ele. E do céu veio uma voz: ‘Tu és o meu Filho amado, em ti ponho meu bem-querer’.

“Em seguida, o Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e ali foi tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam”.

Dois versículos atrás da passagem do evangelho que acabamos de ouvir, se narra a cena do batismo de Jesus por João Batista no Jordão. Marcos nos conta que ali Jesus é declarado Filho amado de Deus, em quem Deus se agrada. Talvez seja melhor traduzir “em quem Deus colocou toda a sua confiança”. Mais tarde, Jesus é “empurrado para o deserto pelo Espírito Santo”, uma figura que encontra sentido unicamente à luz de sua identidade como Filho de Deus “amado e confiável”, aquele que compartilha uma intimidade com o Pai e com o Espírito Santo. O Deserto é apresentado como um lugar onde Jesus se encontrará, face a face, com a tentação, isto é, tudo o que procura destruir a harmonia e a comunhão com Deus. No entanto, Jesus entra nesse lugar tendo a absoluta consciência de sua identidade: ele sabe quem é! O evangelho não menciona a missão de Jesus dirigida às “ovelhas perdidas de Israel” ou aos gentios, coisa que fazem outros evangelistas, mas enfoca a importância da identidade como ponto de partida na construção de uma vida espiritual robusta e consistente. Na verdade, o Pai diz: “Você é meu Filho, o amado”. Afirma desde o início quem é e por que é importante.

Sabemos, de outras passagens das Sagradas Escrituras, que vários dos “escolhidos” de Deus foram testados e não podiam ultrapassar certas provas. Em Gênesis, por exemplo, vemos que Adão, o primeiro homem, falhou. Mais tarde, Noé passou pela experiência do Dilúvio, mas, literalmente falando, ele caiu de bruços quando protagonizou um incidente deplorável com seus filhos. Mais tarde, Abraão experimenta vários fracassos em sua vida. Moisés, por outro lado, vive a experiência do fracasso, porque depois de libertar os israelitas da escravidão no Egito e levá-los pelo deserto, não lhe foi permitido entrar na Terra Prometida. A sorte não era melhor no tempo do rei Davi, que também caiu em pecado.

Menciono brevemente esses personagens do Antigo Testamento para mostrar o forte contraste com a pessoa de Jesus que vive uma experiência de vitória e triunfo, embora, para muitos, tudo tenha terminado como um fracasso, com a morte na Cruz. Segundo São Marcos, Jesus permaneceu no deserto durante 40 dias sendo tentado por Satanás, presumivelmente todos os dias. São Lucas, por outro lado, apresenta a tentação de Jesus apenas no final de seu jejum, nos últimos 40 dias. Sabemos dos estudos teológicos que São Marcos é um pouco mais realista e dá uma ênfase mais direta à dimensão humana de Jesus e seus seguidores. Talvez esse pequeno detalhe possa indicar que Jesus reconhece que a tentação de abandonar o chamado de Deus ou renunciar à identidade que recebemos como filhos de Deus e co-herdeiros com Cristo é um desafio de todos os dias. E acho que aqui vem o primeiro ensino concreto para nós hoje: todos os dias estamos sujeitos a fraquezas. Mas também, todos os dias, o Senhor quer que renovemos nossa resposta, deixemo-nos encher de esperança, de modo que, com criatividade e compromisso, vivamos a nossa vocação de irmãos e menores. Não podemos dizer: hoje sim e amanhã veremos. Mas … Todos os dias! Minha resposta é todos os dias. Com forças ou sem elas, com vigor ou fraqueza, com fertilidade ou aridez, o Senhor aguarda minha resposta todos os dias. “Agora faço novas todas as coisas” (Ap 21, 5).

O tema do discipulado cristão no Evangelho de São Marcos está diretamente relacionado à ideia de que a identidade é algo que deve ser continuamente reafirmado. Por esta razão, a Formação Permanente em nossa relação pessoal com Cristo e entre nós como comunidade de fé e fraternidade da Ordem é fundamental para perseverar no compromisso que fizemos diante de Deus. Mas a Formação Permanente também tem outro propósito: nos mantém alerta aos novos sinais dos tempos, às novas oportunidades para viver mais plenamente a vida evangélica mesmo em meio à confusão da mudança constante, à instabilidade e às ameaças à dignidade humana ou à integridade da criação.

O único antídoto contra a ameaça de se quebrar sob a pressão das múltiplas tentações que aparecem diariamente em nossas vidas é que adotemos um modo de vida que inclua o compromisso diário de seguir Jesus, conscientes de que sempre O seguimos como Irmãos em Fraternidade. Vejamos como Jesus o faria: Ele constantemente “se retira” ou “sobe” para um lugar calmo com seus discípulos, nunca sozinho (Marcos 3, 7.10; 6, 30-31). Jesus propõe um “moratorium”; uma forma de discipulado estruturada em torno do “tempo livre” de sua pregação, ensino e cura dos mais necessitados. Ele nos revela que essa esta forma “alternativa” de viver é vital para manter viva a chama do Espírito de Deus presente em nós e ardendo intensamente.

São Francisco teve esta mesma “visão” e colocou em prática este mesmo método encontrado na vida de Jesus; e também convidou a seus discípulos a abraçar essa maneira de viver sua fé cristã. Portanto, todos nós, os Frades Menores, começando pelo Ministro Geral, e continuando com todos os Ministros e com cada frade, precisamos aprender desta maneira de Jesus e Francisco, essa prática de renovação contínua de fé, esperança e amor, levando-nos um “tempo de qualidade espiritual” para permitir que o Espírito Santo toque nossos corações, cure nossas feridas e nos abra à ação efetiva que nos impele a fazer escolhas sérias, responsáveis e significativas evangelicamente diante das necessidades de nossos irmãos e do Povo de Deus em geral. Se você não está disposto a gastar tempo para estar com ele, poderá ser um grande trabalhador, talvez cheio de muitas qualidades, talvez um excelente comunicador social, um bom elemento para a Província ou a Custódia, mas possivelmente alguém com pouca vida interior e, portanto, com uma “desnutrida espiritualidade”!

Que o Espírito de Deus se derrame em nossas vidas e em todas as entidades da Ordem dos Frades Menores. Que nós, ministros, sejamos os primeiros a abrir nossas vidas para a constante renovação de nossas mentes e corações para que Deus possa trabalhar efetivamente em e através de nós.

Irmãos, juntos com Francisco de Assis, nos comprometemos com essa renovação todos os dias de nossas vidas.

Vamos começar, pois até agora, pouco ou nada fizemos!

Encontro entre as Conferências do Brasil e o Cone Sul

Primeiro domingo da Quaresma – 17/02/2018

Fray Michael A. Perry – Homilia

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