O Carnaval como preparação para a Quaresma

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Afirmar tal premissa pode parecer “herético” para muitos, pois o carnaval traz em si mesmo seus excessos. Tudo parece poder nessa época. A quaresma é o contrário, nos convida a conter os excessos, por exemplo, através da sobriedade no espaço litúrgico, dos poucos instrumentos musicais, do jejum… A quaresma é um tempo “favorável” para reviver a paixão, morte e ressurreição de Jesus.

O caminho quaresmal de preparação para a Páscoa cristã começa hoje, quarta-feira, com o gesto de penitência da imposição das cinzas. As cinzas significam a transitoriedade da vida humana sobre a terra. “Porque tu és pó e ao pó hás de voltar” (Gn 3, 19b). Jó, por exemplo, mostrou seu arrependimento vestindo-se de saco e cobrindo-se de pó; Daniel, profetizando a tomada de Jerusalém pela Babilônia, pede para que o povo faça jejum e cubra-se de cinzas; Jonas prega a destruição de Nínive e o rei decreta o jejum total e deita-se sobre as cinzas. No Novo Testamento aparece com o mesmo significado. Jesus diz: “Aí de ti Betsaida! … há muito tempo teriam demonstrado arrependimento vestindo-se de saco e cobrindo-se de cinzas” (Mt 11, 21).

O sentido litúrgico da quaresma nos ajuda a colocar em prática valores que enobrecem o nosso espírito: oração, jejum e solidariedade. A oração quaresmal deve ser mais frequente, feita em clima de humildade, de perseverança e de confiança. O jejum não é um exercício meramente voluntarista ou masoquista, é uma opção de purificação e de intercessão. A normativa eclesiástica da abstinência da carne durante as sextas-feiras da quaresma e do jejum e da abstinência na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa podem ajudar a viver esta segunda via quaresmal e penitencial. Por fim, a solidariedade desde a mais simples até a que a Igreja propõe todos os anos por meio da Campanha da Fraternidade.

Diante do exposto sobre a quaresma como se pode afirmar que o carnaval é preparação para a quaresma? A palavra “carnaval’ é derivada da expressão latina carnis (carne) e valle (prazer). Sua origem vem da Grécia Antiga e tinha por finalidade agradecer aos deuses pela fertilidade do solo. O seu primeiro “devir” é o louvor, a alegria, a expressão cultural. O excesso ou o “tudo pode”, já é um desvio que não pode apagar a essência.

Portanto, o carnaval é o agradecimento a Deus pela “casa comum”. Não nos esqueçamos “que nós mesmos somos terra (Gn 2, 7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos. Nada deste mundo nos é indiferente” (LS 2) por isso, nos prepara para o tempo favorável.

Frei Pedro Júnior, OFM