Não falta pão, falta partilha

LITURGIA DOMINICAL

As leituras que marcaram a liturgia do domingo anterior ressaltavam a intervenção de Deus em favor daqueles que designou bem-aventurados. Jesus inverte a escala de valores do seu tempo e exprime que, felizes são os pobres, os que choram, os humildes, que passam fome, os misericordiosos, os puros de coração, pacíficos e os perseguidos. Os que são considerados como nada é que são vistos por Jesus como felizes. Seguindo esse mesmo pensar, duas pobres bem-aventuradas viúvas são o centro da liturgia deste domingo.

A cidade da atuação do profeta Elias, “Sarepta” (1Rs 17, 10) passava por uma grande seca, como consequência, mesa vazia, sofrimento, morte… A presença do profeta é sinal da presença de Deus e onde Ele está, há mesa farta, alegria e vida. Elias chega à casa de uma desprotegida na sociedade israelita, a primeira das viúvas, e é ela a testemunha que Deus colocou para salvar o profeta.

Estamos acostumados a ver e ouvir que a salvação vem da boca do homem profeta. Dessa vez a salvação vem justamente de uma mulher viúva, sem nome, e que se compadece de Elias e lhe dá o sustento necessário. De sua aparente fragilidade à sua real generosidade, ela parte o pão em obediência à palavra do profeta e todos ficam satisfeitos. A partilha é o sinal que a vida renasce mesmo em terrenos áridos e que o pouco com Deus é muito, como já diz o dito popular.

Se a cidade de atuação do profeta estava passando por uma seca, o território de atuação de Jesus também passava por outra, mas neste caso não se tratava de falta de algo, como se viu em Sarepta, e sim, de fartura mal distribuída. O costume quando se ia ao Templo era dizer em voz alta quanto depositava no cofre e, por isso, Jesus sabia os valores depositado. Enquanto os ricos davam o que lhes sobrava, isto é, o supérfluo, a viúva deu tudo o que tinha como sinal de sua partilha generosa. Seu sacrifício é maior, por isso, mais autêntico.

A viúva é apresentada por Jesus como exemplo porque ela não retém para si, mas reparte e doa-se por inteiro. Essa é a lógica do Evangelho, enquanto houver partilha não haverá necessitados; enquanto houver doação total, não haverá coisas supérfluas; enquanto houver confiança na providência divina teremos fé garantida.

A carta aos Hebreus (2ª leitura) não fala de uma viúva, mas retrata o que qualifica as duas viúvas citadas: doação. O exemplo agora é o próprio Cristo, Ele é a doação total, não retém nada, nem mesmo sua própria vida. Essa plena doação era o que faltava para a comunhão total do ser humano, isto é, sua salvação.

Em tempos de “secas”, quando há um crescimento de poucos com muitos e muitos com pouco, urge olhar para o exemplo das viúvas e de Jesus. Eles fizeram de suas vidas uma doação real e justa para saciar a falta de muitos e diminuir a abundancia supérflua de poucos, de gente como os escribas cuja preocupação são os primeiros lugares e os elogios.

Frei Pedro Júnior, OFM